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sexta-feira, 28 de agosto de 2015
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
João Sem Telha
A inteligência do Zequinha
Os pais, por um sentimento de orgulho amoroso muito desculpável, mal lhes nasce um filho, acostumam-se logo a gabar no petiz, certas qualidades e aptidões que as pessoas estranhas e o próprio inocentinho, ignorariam para todo o sempre, se não fossem prevenidos.
A perversão dos sentidos paternos é inevitável quando estes tratam de decifrar a seu modo, os monossílabos inconscientes e as atitudes despretensiosas do “rebento encantador” que, com o cérebro ainda dominado pelas exigências do estômago, só se interessa pela hora do “de mamar”. Para o ouvido maravilhado dos pais, o irrefletido “pá-pá-pá” balbuciado pela criancinha, tanto pode significar: “papai”, como “mamãe, tetéia, angu” ou biscoito. Tudo, para isso, depende de ocasião.
La Fontaine, na sua fábula da Águia e da Coruja mostrou a quanto pode chegar o grau de perturbação mental de uma mãe, quando fez o pássaro de Minerva, chamar de “mignons, beaux, bien faits et jolis” aos seus filhotes horrendos e repugnantes. E este mundo anda cheio de mães-corujas que, no entanto não deixam de querer ser “águias” quando debicam nas outras mães os mesmo defeitos e exagero que elas também possuem.
Mas o que os pais fazem mais empenho em exalçar para os estranhos, é a inteligência dos filhos. Quem já não ouviu um de três anos cantarolar “par secousses”, ajudado pelo papai ou pela mamãe, os versinhos da cantiga da época? Quem já não teve notícias pela boca de um pai extremoso das respostas inteligentes e ousadas que seu filho, de 4 anos lhe dá, a todos os instantes?
Ainda ontem, à tarde, viajava eu em um bonde do Ipanema em companhia do dr. Samuel Mosqueira, com destino a sua residência da rua N. S. de Copacabana onde pretendia jantar, quando na altura do Largo do Machado o dr. Samuel, como visse um garoto vendedor de jornais de uns 6 anos presumíveis insultando o condutor do bonde com palavras e gestos obscenos, começou a contar-me a precocidade do seu Zequinha, “enfant terrible” e inteligentíssimo de 5 anos incompletos.
– O meu Zequinha, disse-me o dr. Samuel, não é por seu meu filho, mas sempre foi muito adiantado. O que aquele “diabinho” faz é de causar pasmo a qualquer. Sem ninguém lhe ter ensinado, já sabe cantar todo o “Pois não” do Eduardo Pinto e toca com dois dedinhos o “Vem cá Bitu” do maestro Oswaldo Guerra!...
Na altura do Túnel Novo, o Zequinha já ligava palavras dissilábicas e raciocinava como gente grande, metendo o bedelho na conversa dos maiores.
Ao saltarmos no ninho da “águia”, ele de tão sabido já não ligava importância aos meninos da sua idade, sempre às voltas com seus livros de figuras.
Eu estava ansioso por conhecer, aos cinco anos, o provável substituto de Rui Barbosa na nossa mentalidade futura, e a maldita curiosidade levou-me a exigir a aparição do prodígio, mal transpus os umbrais do salão de visitas do dr. Samuel.
Este não se fez de rogado. Apertando um botão elétrico, chamou um criado e disse-lhe, com a voz cheia de orgulho: – Vá buscar o meu Zequinha...
Vastos minutos se passaram. A conversa já fugira para outro assunto, quando Madame Mosqueira, visivelmente contrariada, penetrou no salão, a reclamar:
– Samuel, vá ver o Zequinha... Está num berreiro dos diabos, há mais de quatro horas, lá no fundo do quintal!...
– Mas o que tem ele?!
– Nada; apenas abriu um buraco no terreno e, agora, quer por força carregá-lo cá pra dentro.
E eu, enquanto o casal ia à cata do teimoso, escapuli-me pelo portão, para que eles, a sós, saboreassem melhor a nova demonstração do intelecto do “prodígio”.
O Jornal, 6 de janeiro de 1920.
Os pais, por um sentimento de orgulho amoroso muito desculpável, mal lhes nasce um filho, acostumam-se logo a gabar no petiz, certas qualidades e aptidões que as pessoas estranhas e o próprio inocentinho, ignorariam para todo o sempre, se não fossem prevenidos.
A perversão dos sentidos paternos é inevitável quando estes tratam de decifrar a seu modo, os monossílabos inconscientes e as atitudes despretensiosas do “rebento encantador” que, com o cérebro ainda dominado pelas exigências do estômago, só se interessa pela hora do “de mamar”. Para o ouvido maravilhado dos pais, o irrefletido “pá-pá-pá” balbuciado pela criancinha, tanto pode significar: “papai”, como “mamãe, tetéia, angu” ou biscoito. Tudo, para isso, depende de ocasião.
La Fontaine, na sua fábula da Águia e da Coruja mostrou a quanto pode chegar o grau de perturbação mental de uma mãe, quando fez o pássaro de Minerva, chamar de “mignons, beaux, bien faits et jolis” aos seus filhotes horrendos e repugnantes. E este mundo anda cheio de mães-corujas que, no entanto não deixam de querer ser “águias” quando debicam nas outras mães os mesmo defeitos e exagero que elas também possuem.
Mas o que os pais fazem mais empenho em exalçar para os estranhos, é a inteligência dos filhos. Quem já não ouviu um de três anos cantarolar “par secousses”, ajudado pelo papai ou pela mamãe, os versinhos da cantiga da época? Quem já não teve notícias pela boca de um pai extremoso das respostas inteligentes e ousadas que seu filho, de 4 anos lhe dá, a todos os instantes?
Ainda ontem, à tarde, viajava eu em um bonde do Ipanema em companhia do dr. Samuel Mosqueira, com destino a sua residência da rua N. S. de Copacabana onde pretendia jantar, quando na altura do Largo do Machado o dr. Samuel, como visse um garoto vendedor de jornais de uns 6 anos presumíveis insultando o condutor do bonde com palavras e gestos obscenos, começou a contar-me a precocidade do seu Zequinha, “enfant terrible” e inteligentíssimo de 5 anos incompletos.
– O meu Zequinha, disse-me o dr. Samuel, não é por seu meu filho, mas sempre foi muito adiantado. O que aquele “diabinho” faz é de causar pasmo a qualquer. Sem ninguém lhe ter ensinado, já sabe cantar todo o “Pois não” do Eduardo Pinto e toca com dois dedinhos o “Vem cá Bitu” do maestro Oswaldo Guerra!...
Na altura do Túnel Novo, o Zequinha já ligava palavras dissilábicas e raciocinava como gente grande, metendo o bedelho na conversa dos maiores.
Ao saltarmos no ninho da “águia”, ele de tão sabido já não ligava importância aos meninos da sua idade, sempre às voltas com seus livros de figuras.
Eu estava ansioso por conhecer, aos cinco anos, o provável substituto de Rui Barbosa na nossa mentalidade futura, e a maldita curiosidade levou-me a exigir a aparição do prodígio, mal transpus os umbrais do salão de visitas do dr. Samuel.
Este não se fez de rogado. Apertando um botão elétrico, chamou um criado e disse-lhe, com a voz cheia de orgulho: – Vá buscar o meu Zequinha...
Vastos minutos se passaram. A conversa já fugira para outro assunto, quando Madame Mosqueira, visivelmente contrariada, penetrou no salão, a reclamar:
– Samuel, vá ver o Zequinha... Está num berreiro dos diabos, há mais de quatro horas, lá no fundo do quintal!...
– Mas o que tem ele?!
– Nada; apenas abriu um buraco no terreno e, agora, quer por força carregá-lo cá pra dentro.
E eu, enquanto o casal ia à cata do teimoso, escapuli-me pelo portão, para que eles, a sós, saboreassem melhor a nova demonstração do intelecto do “prodígio”.
O Jornal, 6 de janeiro de 1920.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
João Sem Telha
Pseudônimo de Wladimir Bernardes.
RESTOS DE VALENTIA
A guerra que o Brasil, há 60 anos passados, se viu obrigado a manter com o Paraguai, pelo largo espaço de um lustro, deu ocasião a que o soldado brasileiro conseguisse assombrar o mundo com a demonstração admirável da sua resistência orgânica, aliada a uma incomparável temeridade.
A história da nossa Pátria, nesse duro período, está ornada de passagens heróicas onde os louros das vitórias foram colhidos pelos nossos mais célebres cabos de guerra, manu propria, no terreno regado de sangue pela chuva da metralhadora.
Os nomes de Caxias, Jaceguay, Barroso, Osório e tantos outros, são títulos de glórias que a esponja do tempo jamais poderá apagar do quadro de honra do Brasil; pena é, porém, que a garra adunca da Morte já tenha arrastado ao silêncio do túmulo a quase totalidade desses valorosos veteranos que tanto souberam zelar pela integridade dos nossos direitos.
Eu, felizmente, ainda conto com a amizade terrena do venerando general Carneiro de Sá, um dos únicos sobreviventes da grande guerra e que fez toda a campanha, como tenente do Estado-Maior, adido à Corte desta heróica cidade de S. Sebastião.
O general Sá, que orça pelos seus nevados 80 anos, ainda possui a antiga firmeza de caráter e o seu porte marcial infunde aos paisanos um sincero sentimento de admiração e respeito, quando ele conta as suas façanhas, se bem que o general Pires Ferreira afiance que a espada do seu colega é, até hoje, mais virgem que o vinho do Rio Grande.
Eu, porém, não acredito em semelhantes intrigas e mentiralhas e ontem pude julgar mais uma vez da coragem indomável do velho general Carneiro.
Estávamos, ele e eu, na Avenida Rio Branco, esquina da Assembléia, conversando em animada palestra sobre a nova organização do Exército, defendendo eu a missão francesa que o general atacava, quando uma forte detonação se fez ouvir para os lados da rua S. José.
O general Carneiro, sustendo a relação de suas proezas que, dizia ele, não tinham sido aprendidas com o estrangeiro, empalideceu repentinamente e perguntou-me assustado:
– Isso foi tiro, João?
– Qual, general; apenas qualquer estouro de pneumático, tornei tranqüilizador.
– Ah! porque se fosse tiro eu ia sentir de perto o cheiro da pólvora, retruca o velho militar, com o peito inflado de ardor belicoso, continuando a recapitulação dos seus atos de heroísmo.
Passavam, porém, uns dez minutos que a detonação fora ouvida, quando de nós ambos se acercou o dr. Jaime de Vasconcelos, algum tanto nervoso.
– Viram a tentativa de assassínio ali na esquina da rua S. José? Um desordeiro detonou o revólver contra um soldado do Exército, mas a bala perdeu-se...
– A detonação de há pouco foi tiro mesmo? perguntei eu curioso.
– Foi, sustentou o dr. Jaime.
– E a bala perdeu-se? inquire o bravo militar.
– Perdeu-se...
– Pois então corram, “seus paisanos”, porque bala não traz letreiro, diz-nos o valente general, desabalando sozinho pela Avenida afora, rumo da Sete de Setembro com toda a celeridade que as suas pernas trôpegas lhe permitiam...
E o dr. Jaime e eu, afrontando o perigo, nos dirigimos sorridentes para o local do crime.
O Jornal, 23 de abril de 1920.
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