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quarta-feira, 1 de outubro de 2025
sábado, 6 de setembro de 2025
sexta-feira, 30 de maio de 2025
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
segunda-feira, 14 de março de 2016
J. Brito
Parentescos
O Sr. Lopes Gonçalves goza para mim das vantagens de me encantar, pelas sublimidades que diz. Dizem-me que é um grande senador, muito alto, muito eloqüente, muito gordo, que fala como um trovão. Não o conheço pessoalmente, nunca o vi mais gordo; e a minha admiração por ele é toda feita através das páginas do “Diário do Congresso”. E é um homem! Não é só um homem grande pela estatura e pela circunferência abdominal, como também um grande homem pela elevação do que diz. Ainda ontem todos nós lemos perplexos as cousas sublimes e elevadas que S. Ex. disse na comissão de Diplomacia e Justiça do Senado. S. Ex. foi sublime!Apenas sublime! Falando do Acre, disse que o comparava a um filho, e a União à mãe. É um achado de expressão! E acrescentou: “à medida que o filho cria juízo, a mãe vai lhe concedendo favores: e só lhe deve dar perfeita liberdade quando ele chegar à maioridade, que no nosso Direito só se adquire aos 21 anos. Ora, o Acre ainda não 21 anos, como pretender dar-lhe autonomia?” – É profundo!...
É profundo, mas consideremos. Analisando bem a cousa, descobre-se aqui um certo parentesco entre o Acre e o Sr. Gonçalves. A União é a mãe: o Acre é o filho da mãe. Mas o que é a União? – É a pátria. – E que é o Sr. Gonçalves? – Senador, pai da pátria. Ora, se o Sr. Gonçalves é pai da mãe, isto é, pai da Pátria, e se a Pátria é a União, que é a mãe do filho, e se o filho da mãe que é o Acre é filho da União, que é filho do pai da Pátria, lóóóógo – como diria o meu amigo Seabra – o eminente senador Gonçalves é avô do Acre e o Acre é neto do senador Gonçalves.
Ou isso está certo ou não há lógica neste país. E só assim se explica o cuidado paternal que o Sr. Gonçalves tem pelo Acre. Diacho é que há no meio o Amazonas de onde o Sr. Gonçalves é filho: e temos a conclusão que o Amazonas é bisavô do Acre. Resta saber nessa parentela toda se o Acre é filho legítimo. O Sr. Gonçalves diz que ele é filho, que a União é a mãe. Mas quem é o pai? O nosso Direito Civil exige a declaração de paternidade para a legitimação dos filhos. Quem é, neste complicado problema familiar, o pai do Acre? Vamos, Sr. senador Lopes Gonçalves! diga! quem é o pai!... Não lhe fica bem expor a União a esse vexame. Se ela é a mãe, se o Acre é o filho da mãe, se o Sr. Senador é pai da pátria e, portanto, pai da mãe e avô do neto, não lhe fica bem trazer esse pequeno pela mão e apresentá-lo à comissão de Diplomacia e Justiça do Senado como um filho espúrio. Não, isso assim não dá certo. O Sr. Lopes tem de legitimar esse negócio – do contrário o Acre não lhe agradece a glória e a sorte de ser aqui apresentado como um simples filho da União, filho sem pai. Simples filho da mãe!...
Gazeta de Notícias, 30 de agosto de 1916.
O Sr. Lopes Gonçalves goza para mim das vantagens de me encantar, pelas sublimidades que diz. Dizem-me que é um grande senador, muito alto, muito eloqüente, muito gordo, que fala como um trovão. Não o conheço pessoalmente, nunca o vi mais gordo; e a minha admiração por ele é toda feita através das páginas do “Diário do Congresso”. E é um homem! Não é só um homem grande pela estatura e pela circunferência abdominal, como também um grande homem pela elevação do que diz. Ainda ontem todos nós lemos perplexos as cousas sublimes e elevadas que S. Ex. disse na comissão de Diplomacia e Justiça do Senado. S. Ex. foi sublime!Apenas sublime! Falando do Acre, disse que o comparava a um filho, e a União à mãe. É um achado de expressão! E acrescentou: “à medida que o filho cria juízo, a mãe vai lhe concedendo favores: e só lhe deve dar perfeita liberdade quando ele chegar à maioridade, que no nosso Direito só se adquire aos 21 anos. Ora, o Acre ainda não 21 anos, como pretender dar-lhe autonomia?” – É profundo!...
É profundo, mas consideremos. Analisando bem a cousa, descobre-se aqui um certo parentesco entre o Acre e o Sr. Gonçalves. A União é a mãe: o Acre é o filho da mãe. Mas o que é a União? – É a pátria. – E que é o Sr. Gonçalves? – Senador, pai da pátria. Ora, se o Sr. Gonçalves é pai da mãe, isto é, pai da Pátria, e se a Pátria é a União, que é a mãe do filho, e se o filho da mãe que é o Acre é filho da União, que é filho do pai da Pátria, lóóóógo – como diria o meu amigo Seabra – o eminente senador Gonçalves é avô do Acre e o Acre é neto do senador Gonçalves.
Ou isso está certo ou não há lógica neste país. E só assim se explica o cuidado paternal que o Sr. Gonçalves tem pelo Acre. Diacho é que há no meio o Amazonas de onde o Sr. Gonçalves é filho: e temos a conclusão que o Amazonas é bisavô do Acre. Resta saber nessa parentela toda se o Acre é filho legítimo. O Sr. Gonçalves diz que ele é filho, que a União é a mãe. Mas quem é o pai? O nosso Direito Civil exige a declaração de paternidade para a legitimação dos filhos. Quem é, neste complicado problema familiar, o pai do Acre? Vamos, Sr. senador Lopes Gonçalves! diga! quem é o pai!... Não lhe fica bem expor a União a esse vexame. Se ela é a mãe, se o Acre é o filho da mãe, se o Sr. Senador é pai da pátria e, portanto, pai da mãe e avô do neto, não lhe fica bem trazer esse pequeno pela mão e apresentá-lo à comissão de Diplomacia e Justiça do Senado como um filho espúrio. Não, isso assim não dá certo. O Sr. Lopes tem de legitimar esse negócio – do contrário o Acre não lhe agradece a glória e a sorte de ser aqui apresentado como um simples filho da União, filho sem pai. Simples filho da mãe!...
Gazeta de Notícias, 30 de agosto de 1916.
domingo, 6 de março de 2016
J. Brito
Velha história
“Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
A historia é velha e muito conhecida. Era o caso daquele delegado de polícia, em cuja zona havia muitos “bicheiros”. Pela manhã, chamava o ordenança, o cabo Osório, e mandava “fazer o jogo”. Isto é: mandava em envelope fechado as suas saudades aos jurisdicionados que bancavam o bicho. Um elegante bilhetinho, perfumado, em papel rosa, com a singela inscrição: “Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
O cabo Osório ia de “bicheiro” em “bicheiro” e entregava o jogo de “seu doutor”. Às 4 da tarde, chegava à porta do gabinete da delegacia, fazia uma continência e dizia sorridente:
– Às ordens de V. S., “seu doutor”. Então V. S. hoje foi feliz?...
O delegado sorria contente.
– Vá lá, Osório, receber. Tive hoje um palpite muito bom. Acertei. Vá receber.
Cabo Osório repetia sua visita diária aos “bicheiros” e levava o dinheiro que o delegado tinha ganho honradamente com o suor do seu rosto.
Isso durante três, quatro, dez, quinze dias. Cabo Osório não sabia o “gênero” em que o delegado organizava a lista, e por isso se admirava que ele acertasse todo o dia.
Sábado, pela manhã, cabo Osório foi fazer o jogo. Entregou os envelopes fechados e não se conteve. Tirou uma moeda da algibeira e entregou ao “bicheiro”:
– Aqui tem. Duzentos réis no palpite de “seu doutor”.
Pela primeira vez nesse dia cabo Osório ganhou no bicho. E ficou freguês. Os “bicheiros” da zona é que deram o desespero.
Gazeta de Notícias, 21 de agosto de 1916.
“Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
A historia é velha e muito conhecida. Era o caso daquele delegado de polícia, em cuja zona havia muitos “bicheiros”. Pela manhã, chamava o ordenança, o cabo Osório, e mandava “fazer o jogo”. Isto é: mandava em envelope fechado as suas saudades aos jurisdicionados que bancavam o bicho. Um elegante bilhetinho, perfumado, em papel rosa, com a singela inscrição: “Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
O cabo Osório ia de “bicheiro” em “bicheiro” e entregava o jogo de “seu doutor”. Às 4 da tarde, chegava à porta do gabinete da delegacia, fazia uma continência e dizia sorridente:
– Às ordens de V. S., “seu doutor”. Então V. S. hoje foi feliz?...
O delegado sorria contente.
– Vá lá, Osório, receber. Tive hoje um palpite muito bom. Acertei. Vá receber.
Cabo Osório repetia sua visita diária aos “bicheiros” e levava o dinheiro que o delegado tinha ganho honradamente com o suor do seu rosto.
Isso durante três, quatro, dez, quinze dias. Cabo Osório não sabia o “gênero” em que o delegado organizava a lista, e por isso se admirava que ele acertasse todo o dia.
Sábado, pela manhã, cabo Osório foi fazer o jogo. Entregou os envelopes fechados e não se conteve. Tirou uma moeda da algibeira e entregou ao “bicheiro”:
– Aqui tem. Duzentos réis no palpite de “seu doutor”.
Pela primeira vez nesse dia cabo Osório ganhou no bicho. E ficou freguês. Os “bicheiros” da zona é que deram o desespero.
Gazeta de Notícias, 21 de agosto de 1916.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
J. Brito
SUBLIMES...
Do sublime ao ridículo há só um passo...
Li uma notícia, achei sublime, achei ridícula. O regimento vai passando. Uma senhora reunira em torno de si, em sua residência, um bando de crianças. Nisso, passa o regimento. Assim que as crianças viram os soldados começaram a cantar o Hino da Bandeira e o Nacional. Sublime! O comandante do regimento, ato contínuo, mete a força em linha e manda que as praças cantem o hino. Ainda sublime, se for verdade. Depois, em companhia dos oficiais, o comandante vai cumprimentar a senhora pela lembrança, pelo espontâneo. (A notícia não diz se a senhora ofereceu café, mas é certo). Continua o sublime.
Continua o sublime. Mas parece que o nosso entusiasmo começa a descambar. Há só um passo, não há mais que um passo do sublime ao ridículo. A força vai passando. Muito bem. “Rantamplan! plan! plan!” como na cançoneta. O grupo de crianças, de repente, em vez do “Tempo será” e do “Chicote queimado” – começa o Hino da Bandeira. O comandante manda fazer alto: – “Toca aí o hino, Vitorino!” – e ali mesmo, ao sol, suados, carabinas ao ombro, os soldados começam a cantar. É dramático. Quando os soldados acabam de cantar, o comandante, entusiasmado, diz: “Rapazes, vamos lá acima, vamos agradecer...”
É sublime esse entusiasmo agora! É sublime, mas compromete. Essas crianças que fazem deter uma força que passa; esses soldados em forma, ao meio da rua cantando o hino; o comandante, com os oficiais indo agradecer (não se sabe se tomaram café) – tudo isso é altamente sublime, altamente patriótico, altamente grandioso, mas dá vontade de rir...
É preciso não passar da medida. Do sublime ao ridículo não há senão um passo... Não demos esse passo, amigos! É preciso que nos contenhamos um pouco, que não arrotemos tanto entusiasmo recolhido de uma vez só – porque a fita pode queimar com um ridículo formidável...
Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1916.
Do sublime ao ridículo há só um passo...
Li uma notícia, achei sublime, achei ridícula. O regimento vai passando. Uma senhora reunira em torno de si, em sua residência, um bando de crianças. Nisso, passa o regimento. Assim que as crianças viram os soldados começaram a cantar o Hino da Bandeira e o Nacional. Sublime! O comandante do regimento, ato contínuo, mete a força em linha e manda que as praças cantem o hino. Ainda sublime, se for verdade. Depois, em companhia dos oficiais, o comandante vai cumprimentar a senhora pela lembrança, pelo espontâneo. (A notícia não diz se a senhora ofereceu café, mas é certo). Continua o sublime.
Continua o sublime. Mas parece que o nosso entusiasmo começa a descambar. Há só um passo, não há mais que um passo do sublime ao ridículo. A força vai passando. Muito bem. “Rantamplan! plan! plan!” como na cançoneta. O grupo de crianças, de repente, em vez do “Tempo será” e do “Chicote queimado” – começa o Hino da Bandeira. O comandante manda fazer alto: – “Toca aí o hino, Vitorino!” – e ali mesmo, ao sol, suados, carabinas ao ombro, os soldados começam a cantar. É dramático. Quando os soldados acabam de cantar, o comandante, entusiasmado, diz: “Rapazes, vamos lá acima, vamos agradecer...”
É sublime esse entusiasmo agora! É sublime, mas compromete. Essas crianças que fazem deter uma força que passa; esses soldados em forma, ao meio da rua cantando o hino; o comandante, com os oficiais indo agradecer (não se sabe se tomaram café) – tudo isso é altamente sublime, altamente patriótico, altamente grandioso, mas dá vontade de rir...
É preciso não passar da medida. Do sublime ao ridículo não há senão um passo... Não demos esse passo, amigos! É preciso que nos contenhamos um pouco, que não arrotemos tanto entusiasmo recolhido de uma vez só – porque a fita pode queimar com um ridículo formidável...
Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1916.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
J. Brito
“Isto é cadeia”
“Nós precisamos de um governo-ditatura que feche esse Congresso; precisamos ainda de um estado de sítio para coonestar o fuzilamento de todos esses ladrões conhecidos e apontados pelo povo”.
Estas solenes palavras, que eu cuidadosamente gravo entre aspas, não me pertencem: pertencem a um fazendeiro em Santa Rita do Sapucaí, o Sr. coronel Antônio Moreira da Costa, que, no caso, para fixar a autoridade do que diz, tem a qualidade de ser irmão do presidente de Minas.
Voto contra o Sr. coronel! Voto contra as duas proposições do Sr. coronel. Por dois motivos: primeiro, porque fechar o Congresso seria pôr em sérias dificuldades os rapazes da imprensa que tem a obrigação de fornecer pilhérias ao público; segundo, porque ter de “fuzilar todos esses ladrões” era um trabalho maluco! Como fuzilar? Se tudo é ladrão, na opinião do Sr. coronel, quem ficaria para executar os culpados?...
A história é velha, mas cabe aqui. Em certa cidade do interior, a cadeia era pequena para conter os ratoneiros da zona. O carcereiro tinha sérias dificuldades para acomodar lá dentro toda a rapaziada que infringia o 7° mandamento da Lei de Deus, que manda “não furtar”. Um belo dia o homenzinho dirigiu-se ao governador da cidade e fez a reclamação. Era preciso uma cadeia maior.
– Mais ou menos de que tamanho? – perguntou o governador.
– Uma cadeia muito grande – disse o carcereiro.
E ambos olharam em torno, calculando, avaliando o número de ladrões prováveis que podia haver na cidade.
– Homem, você sabe de uma cousa?... O melhor é mandar levantar uma grande muralha em torno da cidade, ao redor de toda a cidade, e ficarmos nós também cá dentro.
– Também nós?!...
– Sim. Na opinião deles, nós também somos uns patifes é melhor que fiquemos todos.
Parece que não é bem isso o que deseja o Sr. coronel. S. S., naturalmente, fica do lado de fora da muralha, e quer o estado de sítio para fuzilamento do resto. Aqui é que está o difícil! Quem fuzila?... Se todos nós somos, se o país inteiro é – na opinião do Sr. coronel – um país essencialmente... agrícola, quem ficará para dar ao gatilho?... O Sr. coronel sozinho, lá em Santa Rita do Sapucaí não poderá constituir pelotão... Parece que o melhor é fazer mesmo como o tal governador da cidade do interior: mandar levantar a grande muralha em torno de todo o país (exceção feita a Santa Rita), pespegar uma grande placa azul, como essas das esquinas com o seguinte letreiro: “Isto é uma cadeia”, deixando do lado de fora somente o Sr. coronel com um grande chicote na mão. Para grandes males, grandes... muralhas.
Gazeta de Notícias, 15 de setembro de 1916.
“Nós precisamos de um governo-ditatura que feche esse Congresso; precisamos ainda de um estado de sítio para coonestar o fuzilamento de todos esses ladrões conhecidos e apontados pelo povo”.
Estas solenes palavras, que eu cuidadosamente gravo entre aspas, não me pertencem: pertencem a um fazendeiro em Santa Rita do Sapucaí, o Sr. coronel Antônio Moreira da Costa, que, no caso, para fixar a autoridade do que diz, tem a qualidade de ser irmão do presidente de Minas.
Voto contra o Sr. coronel! Voto contra as duas proposições do Sr. coronel. Por dois motivos: primeiro, porque fechar o Congresso seria pôr em sérias dificuldades os rapazes da imprensa que tem a obrigação de fornecer pilhérias ao público; segundo, porque ter de “fuzilar todos esses ladrões” era um trabalho maluco! Como fuzilar? Se tudo é ladrão, na opinião do Sr. coronel, quem ficaria para executar os culpados?...
A história é velha, mas cabe aqui. Em certa cidade do interior, a cadeia era pequena para conter os ratoneiros da zona. O carcereiro tinha sérias dificuldades para acomodar lá dentro toda a rapaziada que infringia o 7° mandamento da Lei de Deus, que manda “não furtar”. Um belo dia o homenzinho dirigiu-se ao governador da cidade e fez a reclamação. Era preciso uma cadeia maior.
– Mais ou menos de que tamanho? – perguntou o governador.
– Uma cadeia muito grande – disse o carcereiro.
E ambos olharam em torno, calculando, avaliando o número de ladrões prováveis que podia haver na cidade.
– Homem, você sabe de uma cousa?... O melhor é mandar levantar uma grande muralha em torno da cidade, ao redor de toda a cidade, e ficarmos nós também cá dentro.
– Também nós?!...
– Sim. Na opinião deles, nós também somos uns patifes é melhor que fiquemos todos.
Parece que não é bem isso o que deseja o Sr. coronel. S. S., naturalmente, fica do lado de fora da muralha, e quer o estado de sítio para fuzilamento do resto. Aqui é que está o difícil! Quem fuzila?... Se todos nós somos, se o país inteiro é – na opinião do Sr. coronel – um país essencialmente... agrícola, quem ficará para dar ao gatilho?... O Sr. coronel sozinho, lá em Santa Rita do Sapucaí não poderá constituir pelotão... Parece que o melhor é fazer mesmo como o tal governador da cidade do interior: mandar levantar a grande muralha em torno de todo o país (exceção feita a Santa Rita), pespegar uma grande placa azul, como essas das esquinas com o seguinte letreiro: “Isto é uma cadeia”, deixando do lado de fora somente o Sr. coronel com um grande chicote na mão. Para grandes males, grandes... muralhas.
Gazeta de Notícias, 15 de setembro de 1916.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
J. Brito
Enganos...
Esse caso do “suicida” de Niterói tem o seu lado agradável.
Agradável – é bom dizer – para o “ressuscitado”, porque para o outro não teve graça nenhuma.
Aqui, um Sr. Nunes, que tinha uma agência de casamentos, partiu para o Ignorado. Partiu, deixando cartas, dizendo que ia para lá mesmo. E foi para Niterói. Lá, na Praia Grande, havia um homem com o lindo nome de João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) a quem aprouve espairecer, ir passear, dar um giro na zona, sem dizer nada à família... Por uma fatalidade dessas que descem d’além e caem em Niterói, apareceu lá um cadáver. Um homem havia dado um tiro nos miolos e estava no Necrotério. Quem era? A família (ou os parentes) do Sr. João Antunes de Castro Guimarães foi ao Necrotério e reconheceu o cadáver. Era o cadáver do defunto. Entrou logo em despesas e fez um enterro “baita”! Ao saimento fúnebre compareceram todos os “grossos” de Niterói, até o juiz de direito.
Entrementes, o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é, etc.) estava em Maricá, a ler os jornais. E tanto leu que deparou com um anúncio de missa de sétimo dia. E tanto firmou, que viu o nome do falecido. E tanto viu o nome, que acabou vendo que a missa era dele, era por alma dele...
Ora essa!... E leu mais que o enterro havia sido muito concorrido, e que toda a gente em Niterói “churava”, como diz certa atriz do Recreio. O “defunto” disse consigo: “vão agourar o boi!” e tomou o trem à pressa a ver se chegava em Niterói a tempo de assistir à “sua” missa de sétimo dia...
Chegou a tempo... Os herdeiros ainda não haviam feito o inventário. Tudo estava intacto. Ah! que susto!... E o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) saiu a correr, de jornal em jornal, de Niterói e de cá, a dizer que não tinha morrido...
Foi sorte!... Afinal, o outro, o que morreu de verdade, não deixou de ter o seu enterro pomposo. Sempre foi uma última consolação. O Sr. João Guimarães há de lamentar também – coitado! – que quando morrer de verdade talvez não tenha um enterro tão “baita” como teve agora... para os outros.
Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1916.
Esse caso do “suicida” de Niterói tem o seu lado agradável.
Agradável – é bom dizer – para o “ressuscitado”, porque para o outro não teve graça nenhuma.
Aqui, um Sr. Nunes, que tinha uma agência de casamentos, partiu para o Ignorado. Partiu, deixando cartas, dizendo que ia para lá mesmo. E foi para Niterói. Lá, na Praia Grande, havia um homem com o lindo nome de João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) a quem aprouve espairecer, ir passear, dar um giro na zona, sem dizer nada à família... Por uma fatalidade dessas que descem d’além e caem em Niterói, apareceu lá um cadáver. Um homem havia dado um tiro nos miolos e estava no Necrotério. Quem era? A família (ou os parentes) do Sr. João Antunes de Castro Guimarães foi ao Necrotério e reconheceu o cadáver. Era o cadáver do defunto. Entrou logo em despesas e fez um enterro “baita”! Ao saimento fúnebre compareceram todos os “grossos” de Niterói, até o juiz de direito.
Entrementes, o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é, etc.) estava em Maricá, a ler os jornais. E tanto leu que deparou com um anúncio de missa de sétimo dia. E tanto firmou, que viu o nome do falecido. E tanto viu o nome, que acabou vendo que a missa era dele, era por alma dele...
Ora essa!... E leu mais que o enterro havia sido muito concorrido, e que toda a gente em Niterói “churava”, como diz certa atriz do Recreio. O “defunto” disse consigo: “vão agourar o boi!” e tomou o trem à pressa a ver se chegava em Niterói a tempo de assistir à “sua” missa de sétimo dia...
Chegou a tempo... Os herdeiros ainda não haviam feito o inventário. Tudo estava intacto. Ah! que susto!... E o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) saiu a correr, de jornal em jornal, de Niterói e de cá, a dizer que não tinha morrido...
Foi sorte!... Afinal, o outro, o que morreu de verdade, não deixou de ter o seu enterro pomposo. Sempre foi uma última consolação. O Sr. João Guimarães há de lamentar também – coitado! – que quando morrer de verdade talvez não tenha um enterro tão “baita” como teve agora... para os outros.
Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1916.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
J. Brito
Modernismos...
As palavras, como os vestidos, entram e saem da moda. Atualmente uma delas que grita é a palavra “palace”. Usa-se atualmente “palace” para tudo. Há anos, logo depois da crisma do antigo teatro Casino (que passou a ser Palace Theatre) a palavra estacionou um poucochito. Não estava em moda... De dois anos para cá, desembestou, celebrizou-se. Hoje tudo é “palace”. Já há três hotéis, quatro cafés, duas casas de bilhetes de loteria, uma de “tolerância” e uma de “bicho”, com o nome de “palace”. A epidemia é pior do que a que houve há tempos com o nome de “Rio Branco”. Um carteiro do Correio, que já tinha no seu livro de notas 12 ruas com o nome de Rio Branco, 13 leiterias, 17 bazares, 19 restaurantes, 12 casas de bicho, 11 vendas, enlouqueceu no dia em que lhe disseram que a travessa do Senado também passava a ser rua Rio Branco; e depois desse dia nunca mais as cartas chegaram a seu destino. Primeiro que se acerte a qual das doze ruas do Distrito Federal se destina uma carta que traga o nome de Rio Branco, o destinatário morre de velho.
Agora, a moda é com a palavra “Palace”. Nas proximidades do largo de S. Francisco há o “Palace Sorte” (casa de bicho), na rua do Hospício há o “Palace Paradis” (casa que não é de bicho), mas o cúmulo é uma senhora que anuncia nos jornais e assina-se “Palace Mariquinhas” – francamente é demais! Percebe-se que ela se chama Mariquinhas da Silva, Mariquinhas da Boa Vida ou Mariquinhas Quinhentos Réis. Mas a moda tem uma grande força sugestiva. Como talvez essa senhora tenha lido por toda a parte a palavra “Palace”, como “Palace” é a palavra que está na moda, entendeu ela que era “chic” pra burro pôr o “Palace” no nome. E nem ao menos assina “Mariquinhas Palace”; o “chic” é antepor ao nome a palavra fatal: Palace Theatre, Palace Hotel, Palace Café, Palace Mariquinhas. Francamente, não nos falta ver mais nada...
Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1916.
As palavras, como os vestidos, entram e saem da moda. Atualmente uma delas que grita é a palavra “palace”. Usa-se atualmente “palace” para tudo. Há anos, logo depois da crisma do antigo teatro Casino (que passou a ser Palace Theatre) a palavra estacionou um poucochito. Não estava em moda... De dois anos para cá, desembestou, celebrizou-se. Hoje tudo é “palace”. Já há três hotéis, quatro cafés, duas casas de bilhetes de loteria, uma de “tolerância” e uma de “bicho”, com o nome de “palace”. A epidemia é pior do que a que houve há tempos com o nome de “Rio Branco”. Um carteiro do Correio, que já tinha no seu livro de notas 12 ruas com o nome de Rio Branco, 13 leiterias, 17 bazares, 19 restaurantes, 12 casas de bicho, 11 vendas, enlouqueceu no dia em que lhe disseram que a travessa do Senado também passava a ser rua Rio Branco; e depois desse dia nunca mais as cartas chegaram a seu destino. Primeiro que se acerte a qual das doze ruas do Distrito Federal se destina uma carta que traga o nome de Rio Branco, o destinatário morre de velho.
Agora, a moda é com a palavra “Palace”. Nas proximidades do largo de S. Francisco há o “Palace Sorte” (casa de bicho), na rua do Hospício há o “Palace Paradis” (casa que não é de bicho), mas o cúmulo é uma senhora que anuncia nos jornais e assina-se “Palace Mariquinhas” – francamente é demais! Percebe-se que ela se chama Mariquinhas da Silva, Mariquinhas da Boa Vida ou Mariquinhas Quinhentos Réis. Mas a moda tem uma grande força sugestiva. Como talvez essa senhora tenha lido por toda a parte a palavra “Palace”, como “Palace” é a palavra que está na moda, entendeu ela que era “chic” pra burro pôr o “Palace” no nome. E nem ao menos assina “Mariquinhas Palace”; o “chic” é antepor ao nome a palavra fatal: Palace Theatre, Palace Hotel, Palace Café, Palace Mariquinhas. Francamente, não nos falta ver mais nada...
Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1916.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
J. Brito
Uma mulher que vende o marido
Este é o título de uma notícia que me cai debaixo dos olhos. Uma senhora americana, milionária de Boston, Miss Agner Bedell Cuinay, propôs à Miss Mary Chondler, também milionária, passar-lhe o trambolho, que dá pelo nome de Frederick, e não tem vintém.
Quanto a preço? Mil dólares, apenas. Barato. Na nossa moeda quatro contos de réis. Um marido sem cheta por quatro contos é um pau por um olho. Há quem dê muito mais do que isso para... ver-se livro do trambolho que tem. Diz o jornal que a oferta foi aceita, porque Miss Chondler tinha um certo “facataz” pelo Frederick. Pela vice-versa da reciprocidade (e esta!) o Frederick – não obstante casado com Miss Agner Cuinay, ou talvez por isso mesmo – andava assim, “pelo beicinho”, roxo de paixão solapante, “doente” pela Miss Chondler. Resultado: essa “roxura” toda deu em resultado a Sra. Cuinay catrapiscar dos movimentos que eles faziam nos derretimentos do “flirt” e requerer o divórcio.
Muito bem. Não resta dúvida que Miss Cuinay, mesmo americana, teve sua “dorzinha” de... cotovelo, e ainda durante a ação, só para moer, escreveu à rival a seguinte carta:
“Vejo que tendes necessidade de um marido que cuide das vossas propriedades e que se faça de pai do vosso filho. Estou disposta a ‘vender-vos’ meu marido pela soma de mil dólares, dinheiro à vista. Ele é trabalhador e está cansado de sustentar a família. Nunca conseguimos chegar a um acordo em religião e de amigos. Ele ficara contente de viver convosco e ninar vosso filho. Eu prefiro ficar com o meu gato!”
À parte aquela “dorzinha”, a carta tem muito... – como dizer? – muito... americanismo. Preferia o gato – mas, primeiro, passe para cá os mil dólares, e à vista. “Estava cansado de sustentar a família, nunca chegara a um acordo, nem em religião, nem em amizades...” Muito direito tudo. Mas no fim, no sumo, no âmago, o que se vê? Aquela “dorzinha” da preferência de outra, o velho La Fontaine, a raposa, as uvas... O marido estava verde, não prestava, antes o gato – porque gostava doutra.
Ai! como este mundo é parecido, em todos os tempos, em todos os divórcios, mesmo entre as milionárias excêntricas!...
Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1916.
Este é o título de uma notícia que me cai debaixo dos olhos. Uma senhora americana, milionária de Boston, Miss Agner Bedell Cuinay, propôs à Miss Mary Chondler, também milionária, passar-lhe o trambolho, que dá pelo nome de Frederick, e não tem vintém.
Quanto a preço? Mil dólares, apenas. Barato. Na nossa moeda quatro contos de réis. Um marido sem cheta por quatro contos é um pau por um olho. Há quem dê muito mais do que isso para... ver-se livro do trambolho que tem. Diz o jornal que a oferta foi aceita, porque Miss Chondler tinha um certo “facataz” pelo Frederick. Pela vice-versa da reciprocidade (e esta!) o Frederick – não obstante casado com Miss Agner Cuinay, ou talvez por isso mesmo – andava assim, “pelo beicinho”, roxo de paixão solapante, “doente” pela Miss Chondler. Resultado: essa “roxura” toda deu em resultado a Sra. Cuinay catrapiscar dos movimentos que eles faziam nos derretimentos do “flirt” e requerer o divórcio.
Muito bem. Não resta dúvida que Miss Cuinay, mesmo americana, teve sua “dorzinha” de... cotovelo, e ainda durante a ação, só para moer, escreveu à rival a seguinte carta:
“Vejo que tendes necessidade de um marido que cuide das vossas propriedades e que se faça de pai do vosso filho. Estou disposta a ‘vender-vos’ meu marido pela soma de mil dólares, dinheiro à vista. Ele é trabalhador e está cansado de sustentar a família. Nunca conseguimos chegar a um acordo em religião e de amigos. Ele ficara contente de viver convosco e ninar vosso filho. Eu prefiro ficar com o meu gato!”
À parte aquela “dorzinha”, a carta tem muito... – como dizer? – muito... americanismo. Preferia o gato – mas, primeiro, passe para cá os mil dólares, e à vista. “Estava cansado de sustentar a família, nunca chegara a um acordo, nem em religião, nem em amizades...” Muito direito tudo. Mas no fim, no sumo, no âmago, o que se vê? Aquela “dorzinha” da preferência de outra, o velho La Fontaine, a raposa, as uvas... O marido estava verde, não prestava, antes o gato – porque gostava doutra.
Ai! como este mundo é parecido, em todos os tempos, em todos os divórcios, mesmo entre as milionárias excêntricas!...
Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1916.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
J. Brito
PAPAGAIOS
Há papagaios que falam muito: que falam mesmo demais. Não vai nisso nenhuma alusão aos Srs. deputados. Aqui se trata de papagaios e não de “papagaios”; isto é: papagaios em redondo e não entre aspas. Trata-se de papagaios que são muito mais baratos ao Tesouro; que não ganham cem mil réis por dia; que não dizem desaforos nem cousas pesadas na Câmara...
São os inocentes “louros”. Entre esses – ia eu começando a dizer lá acima – há papagaios que falam muito, e papagaios que falam demais...
Há papagaios poetas e compositores. (Repito que não se trata aqui de deputados, e sim de papagaios de verdade). Há papagaios poetas e papagaios maestros. A atriz Judith Garcez possui um, que lhe mandaram de presente de Maceió (papagaio alagoano, patrício do Sr. Raimundo Miranda), que não só é um poeta inspiradíssimo, compondo quadras rimadas, como um maestro batuta, metendo em música as poesias que compõe.
Consta até – e isto eu digo muito em segredo – que o maestro Felipe Duarte tem apanhado “motivos” nas loas desse poeta sertanejo.
Expliquemos: o papagaio da Sra. Judith sabia, quando veio lá da terra de Raimundo, aquela cousa rococó que todo o papagaio sabe:
Há papagaios que falam muito: que falam mesmo demais. Não vai nisso nenhuma alusão aos Srs. deputados. Aqui se trata de papagaios e não de “papagaios”; isto é: papagaios em redondo e não entre aspas. Trata-se de papagaios que são muito mais baratos ao Tesouro; que não ganham cem mil réis por dia; que não dizem desaforos nem cousas pesadas na Câmara...
São os inocentes “louros”. Entre esses – ia eu começando a dizer lá acima – há papagaios que falam muito, e papagaios que falam demais...
Há papagaios poetas e compositores. (Repito que não se trata aqui de deputados, e sim de papagaios de verdade). Há papagaios poetas e papagaios maestros. A atriz Judith Garcez possui um, que lhe mandaram de presente de Maceió (papagaio alagoano, patrício do Sr. Raimundo Miranda), que não só é um poeta inspiradíssimo, compondo quadras rimadas, como um maestro batuta, metendo em música as poesias que compõe.
Consta até – e isto eu digo muito em segredo – que o maestro Felipe Duarte tem apanhado “motivos” nas loas desse poeta sertanejo.
Expliquemos: o papagaio da Sra. Judith sabia, quando veio lá da terra de Raimundo, aquela cousa rococó que todo o papagaio sabe:
“Papagaio real,
pelo Portugal!
Quem passa, meu louro?
É el-rei que vai à caça!
Toca trombeta e caixa!
Toca, que el-rei passa!”
pelo Portugal!
Quem passa, meu louro?
É el-rei que vai à caça!
Toca trombeta e caixa!
Toca, que el-rei passa!”
Pois muito bem. Este papagaio sertanejo chegou ao Rio na época carnavalesca, quando os nossos ouvidos estavam sendo martirizados por aquela popular canção do “Pelo telefone”, “Ai a Rolinha! Siô! Siô!”.
O “louro” da terra do sururu chegou e começou a ouvir aquela “martelação” diária nos ouvidos do próximo: não havia gramofone, realejo, moleque de rua, piano familiar, revista de ano (até uma do Raul, no Trianon) que não azucrinasse os ouvidos da humanidade com o “Ai! a Rolinha, Siô! Siô!”.
E o papagaio (“sarado” como todo alagoano que se preza) começou a adaptar o que já sabia à canção da moda no Rio. E é um gosto vê-lo agora, fazendo versos da cabeça dele, compondo músicas da cabeça dele, “combinar” a canção sertaneja que os papagaios aprendem no sertão com a caceteação urbana do “Pelo telefone”.
Ainda há dias cantava ele para um grande público:
O “louro” da terra do sururu chegou e começou a ouvir aquela “martelação” diária nos ouvidos do próximo: não havia gramofone, realejo, moleque de rua, piano familiar, revista de ano (até uma do Raul, no Trianon) que não azucrinasse os ouvidos da humanidade com o “Ai! a Rolinha, Siô! Siô!”.
E o papagaio (“sarado” como todo alagoano que se preza) começou a adaptar o que já sabia à canção da moda no Rio. E é um gosto vê-lo agora, fazendo versos da cabeça dele, compondo músicas da cabeça dele, “combinar” a canção sertaneja que os papagaios aprendem no sertão com a caceteação urbana do “Pelo telefone”.
Ainda há dias cantava ele para um grande público:
“Papagaio real,
Siô Siô!
Pelo Portugal!
Siô Siô!
Quem passa, meu louro?
Siô Siô!
El-rei que vai à caça!
Siô Siô!”
Siô Siô!
Pelo Portugal!
Siô Siô!
Quem passa, meu louro?
Siô Siô!
El-rei que vai à caça!
Siô Siô!”
E assim por diante. É um papagaio que faz versos e música; um papagaio que sabe “adaptar”, como muito original escritor teatral do Rio de Janeiro. E – que pena! – não ganha cem mil réis por dia, como o “papagaio” Raimundo, seu honrado patrício.
Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1917.
Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1917.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
J. Brito
Boatos...
Francelino Petalógico era proprietário e redator-chefe de um órgão de grande circulação chamado O Boato. Jornal muito lido, com uma tiragem de seiscentos milhões de exemplares (não obstante dizerem que o Brasil é um país essencialmente... analfabeto) O Boato dá sempre dezesseis e dezoito edições por dia, no inverno, sendo que às vezes no verão chega ao máximo de 39 edições. Agora, com a guerra, e esta trepidação diária em que vivemos, como pintos em cima de uma chapa quente – o grande órgão O Boato começou a dar cousas sensacionais de cinco em cinco minutos. Às 7 horas da manhã (dantes O Boato era matutino) vinha a nota piramidolosa de que um corsário alemão tinha metido a pique 742 unidades inglesas no Mar de Espanha. Às 8 horas havia um carapetão maior com vítimas; às 11 o kaiser havia tomado quatro cidades inglesas e um rubinat autêntico para não ter uma indigestão real. Às duas da tarde (porque O Boato também era vespertino) havia uma edição aumentada, com títulos graúdos: grande batalha naval! A esquadra alemã encurralara 389 navios ingleses ao largo da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Puramente sensacional. Às 4 e meia da tarde o general Hindenburg jogava o “pocker” com o rei dos belgas, em Londres; às 2 da manhã (O Boato era matutino, vespertino, noturnino e madrugadino) rebentava em Niterói uma estralada germanófila, chefiada pelo Cardeal Arcoverde... As edições esgotavam-se rapidamente, de meio em meio minuto, aos milhões, bilhões de exemplares, que os gazeteiros vendiam por eletricidade...
Ainda ontem O Boato descobriu uma que é de se lhe tirar o chapéu. Uma revolução autêntica, o estouro da boiada, com cadáveres correndo pela Avenida Central, 18 couraçados alemãs no Canal do Mangue, dois submarinos no lago dos cisnes do Campo de Santana, e mais outro dentro de um chope que um alemão fingia beber na “terrasse” da Casa Cintra, antiga Castelões. Situação negra! Cousas pretas. A Áustria fizera já desembarcar, secretamente, oito ou dez batalhões de artilharia que estavam guarnecendo os centros estratégicos das ruas das Marrecas, Núncio, Tobias Barreto, S. Jorge e adjacências.
Última Hora – O Boato dava sempre 13 e 14 “últimas horas” todos os dias. Dava mais do que um relógio. Tinha aparecido morto o cadáver de um alemão (suspeitado de alemão) que, depois de interrogado na Assistência, declarou que era inglês de Marrocos e que havia perdido ontem 2$500 no galo.
O Boato deve aparecer hoje tarjado de luto pela morte do Neves.
Gazeta de Notícias, 13 de maio de 1917.
Francelino Petalógico era proprietário e redator-chefe de um órgão de grande circulação chamado O Boato. Jornal muito lido, com uma tiragem de seiscentos milhões de exemplares (não obstante dizerem que o Brasil é um país essencialmente... analfabeto) O Boato dá sempre dezesseis e dezoito edições por dia, no inverno, sendo que às vezes no verão chega ao máximo de 39 edições. Agora, com a guerra, e esta trepidação diária em que vivemos, como pintos em cima de uma chapa quente – o grande órgão O Boato começou a dar cousas sensacionais de cinco em cinco minutos. Às 7 horas da manhã (dantes O Boato era matutino) vinha a nota piramidolosa de que um corsário alemão tinha metido a pique 742 unidades inglesas no Mar de Espanha. Às 8 horas havia um carapetão maior com vítimas; às 11 o kaiser havia tomado quatro cidades inglesas e um rubinat autêntico para não ter uma indigestão real. Às duas da tarde (porque O Boato também era vespertino) havia uma edição aumentada, com títulos graúdos: grande batalha naval! A esquadra alemã encurralara 389 navios ingleses ao largo da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Puramente sensacional. Às 4 e meia da tarde o general Hindenburg jogava o “pocker” com o rei dos belgas, em Londres; às 2 da manhã (O Boato era matutino, vespertino, noturnino e madrugadino) rebentava em Niterói uma estralada germanófila, chefiada pelo Cardeal Arcoverde... As edições esgotavam-se rapidamente, de meio em meio minuto, aos milhões, bilhões de exemplares, que os gazeteiros vendiam por eletricidade...
Ainda ontem O Boato descobriu uma que é de se lhe tirar o chapéu. Uma revolução autêntica, o estouro da boiada, com cadáveres correndo pela Avenida Central, 18 couraçados alemãs no Canal do Mangue, dois submarinos no lago dos cisnes do Campo de Santana, e mais outro dentro de um chope que um alemão fingia beber na “terrasse” da Casa Cintra, antiga Castelões. Situação negra! Cousas pretas. A Áustria fizera já desembarcar, secretamente, oito ou dez batalhões de artilharia que estavam guarnecendo os centros estratégicos das ruas das Marrecas, Núncio, Tobias Barreto, S. Jorge e adjacências.
Última Hora – O Boato dava sempre 13 e 14 “últimas horas” todos os dias. Dava mais do que um relógio. Tinha aparecido morto o cadáver de um alemão (suspeitado de alemão) que, depois de interrogado na Assistência, declarou que era inglês de Marrocos e que havia perdido ontem 2$500 no galo.
O Boato deve aparecer hoje tarjado de luto pela morte do Neves.
Gazeta de Notícias, 13 de maio de 1917.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
J. Brito
Magnífico
Essa deliciosa peça que o Exmo. Sr. Marquês de Cavalcanti acaba de pregar a alguns papalvos indígenas, merece bem um prêmio. O marquês merece ser promovido a duque.
Qualquer gajo bem falante que aí chega, vindo da Europa e da Civilização, enfeita-se logo com um título de conde, de marquês (até príncipes e princesas já temos tido, mais ou menos russas) e começa logo a embrulhar elegantemente o indígena que cai como um patinho. E é muitíssimo bem feito.
Esse Marquês de Cavalcanti (eu só escrevo Marquês com M grande, que é pra dar importância ao gajo e ao capítulo) usou de um “truc” curioso e galante, para enganar os tolos. Tinha ele para seu uso particular uma ‘mademoiselle’ com escritório de cartomancia à Avenida Central. Por meios indiretos, conseguia encaminhar para a graciosa cartomante os papalvos dinheirudos a que queria enganar. Antes, tinha o Sr. Marquês o especialíssimo cuidado de informar (particularmente) à Mademoiselle do passado, presente e futuro dos ditos camaradas – de modo que quando qualquer um deles, por mero acaso, chegava a ir consultar a elegante cartomante, ela lhe dizia cousas tão íntimas da sua vida passada, da sua vida presente, que o camarada tinha de acreditar por força no que ela ainda lhe dizia de sua vida futura.
E como anteriormente o finório do Marquês já tinha entabulado com esses dinheirudos amigos os seus “vantajosíssimos negócios”, Mademoiselle aludia vagamente, com o ar mais cândido deste mundo, sem uma previsão categórica e concisa (para não fazer desconfiar) que “eles de futuro iriam ser muito felizes, em um negócio que estavam fazendo com um titular muito rico...”
Percebe-se, heim?... Diabólico, heim?... Quem é que escapa de uma destas?... Se a mulherzinha havia adivinhado todo o passado, todo o presente – como duvidar de que ela não acertava também, adivinhando o futuro?...
Todos caíam... As notas de polícia dizem que o Marquês levava indiretamente para a Avenida as suas futuras vítimas, que ignoravam as suas relações com a cartomante...
Também, tinha graça que ele fosse confessar o “truc”...
É claro, meus amigos, que esse Marquês merece ser promovido a Duque.
Gazeta de Notícias, 22 de abril de 1917.
sábado, 19 de setembro de 2015
J. Brito
Gatunos amáveis
Está publicado que os Srs. Gatunos tomaram a providência de avisar, pelo telefone, os donos das casas que pretendem visitar.
Beneméritos, os Srs. gatunos!... Compreende-se que é um tanto aborrecido ser despertada uma pessoa, alta noite, ao grito de “ladrões em casa!”. É o susto, é o alarma, é o choque que interrompe um sono tranqüilo – e isso de despertar com um susto faz moléstia de coração, segundo a medicina antiga e moderna.
Assim, com o aviso prévio da “visita” logo à noite, os Srs. gatunos prestam um real serviço aos roubados. Dar-se-á que estes preferiam não receber a visita; mas entre ser roubado com um mau despertar, com surpresa, e esperar, calmamente, uma visita amável, se anuncia – francamente a escolha não é difícil: toda a gente prefere esperar a visita, ou com doces e vinhos, um baralho de “pocker”, ou com uma boa pistola, à vontade do freguês. Por isso, se verifica que os Srs. gatunos são gentis e amáveis com essa delicada lembrança do telefone.
Pessoas que falam de cadeira nessa matéria, tanto no capítulo “visitado”, como no capítulo “visitador”, dizem que é sempre uma felicidade a vítima não estar acordada... Se o visitador encontra a sua vítima acordada, ou se ela tem a triste idéia de acordar durante o “serviço”, é uma maçada! O gatuno tem de fazer valer os seus direitos, defender a liberdade, não perder o trabalho, e puxa da faca e... quase sempre acontece o que aconteceu à velha da mala de ouro da rua Goiás.
D parte do cavalheiro que recebe a visita, é sempre melhor estar no mais pesado do seu sono: o gatuno faz o serviço e vai, sem mais estrago. É sabido mesmo o caso de um rapaz nada valente que estava na cama, acordadinho da Silva, quando um rapinante lhe entrou sorrateiramente pelo quarto, pé ante pé... A vítima tomou logo a acertadíssima providência de fingir que estava dormindo – e assistir mudo e quedo à operação do outro que lhe levava tudo. Ao fim do serviço, quando o outro já ia embora, já tinha mesmo saído a porta, ele, o roubado, deitando um olho indagador fora das cobertas, animou-se a dizer, com voz tímida:
– Boa noite, seu gatuno.
Por isso essa idéia do aviso pelo telefone é excelente. Os tímidos tomarão a providência de... não estarem em casa.
Gazeta de Notícias, 8 de março de 1917.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
J. Brito
José Ângelo Vieira de Brito ficou mais conhecido com o pseudônimo de J. Brito.
Escreveu crônicas humorísticas com o pseudônimo de Antônio em A Notícia e na Gazeta de Notícias.
Escreveu crônicas humorísticas com o pseudônimo de Antônio em A Notícia e na Gazeta de Notícias.
PARTIDA
Américo, muito amigo de pregar “partidas”, sabendo que o Vieira estava sem vintém, chegou-se-lhe misteriosamente ao pé do ouvido e disse baixo como numa revelação:
– Sabes? o Manduca está cheio de dinheiro!
Antes disso já ele havia sondado o “espírito financeiro” do Manduca, e sabia que ele estava... como o Vieira: “limpo”. Pregara-lhe a mesma partida “partida”, soprando-lhe ao ouvido:
– Sabes?... o Vieira está com uma bruta bolada!
Feito isso, preparado o terreno da intriga, o pilhérico Américo fechou-se em copas. À pequena distância, começou a observar a atitude dos dous: eram dous “prontos” entre si, cada um deles julgando que o outro estava “cheio”. Primeiro o Manduca teve para Vieira um sorriso inexpressivo, sorriso de pronto para homem que tem dinheiro; a esse sorriso o Vieira correspondeu com outro, mais afetuoso; e começou entre os dous uma espécie de namoro correspondido, com olhares significativos, sorrisinhos, concordâncias, etc., etc. Por fim, os dous falaram-se, pois se davam. O Vieira começou:
– Ah! seu Manduca, deve ser uma cousa horrível quando um camarada não tem dinheiro...
– Oh! sim, deve ser... Calculo... Deve ser horrível. Eu felizmente...
– Também eu. Só sei disso por ouvir dizer.
– Graças a Deus, sempre consigo...
– Eu também. Mas deve ser horrível.
O Vieira teve assim a confirmação de que o Manduca tinha “algum”. Convidou-o para tomar “alguma cousa”. Beberam, olharam-se, sorriram-se... Cada um deles com uma doida vontade de dar o bote no outro. Na hora de pagar, o Manduca “coçou-se”; igualmente “coçou-se” o Vieira; das duas coçadelas não saiu nada. Ambos olharam o espaço azul; passou-se um longo minuto. O Vieira coçou-se de novo. Ambos estavam com muita coragem, porque cada um sabia que o outro “garantia”. Por fim o Manduca falou:
– Tens miúdos aí?
– Não.
– É porque eu não tenho trocado...
– Também eu trocado não tenho...
– Então vamos trocar.
– Vamos.
– Troca lá, porque eu não tenho para trocar.
– Também eu, para trocar não tenho...
– Mas você não está cheio de dinheiro?
– Deixa de pilhéria. Você é que está.
Américo, muito amigo de pregar “partidas”, sabendo que o Vieira estava sem vintém, chegou-se-lhe misteriosamente ao pé do ouvido e disse baixo como numa revelação:
– Sabes? o Manduca está cheio de dinheiro!
Antes disso já ele havia sondado o “espírito financeiro” do Manduca, e sabia que ele estava... como o Vieira: “limpo”. Pregara-lhe a mesma partida “partida”, soprando-lhe ao ouvido:
– Sabes?... o Vieira está com uma bruta bolada!
Feito isso, preparado o terreno da intriga, o pilhérico Américo fechou-se em copas. À pequena distância, começou a observar a atitude dos dous: eram dous “prontos” entre si, cada um deles julgando que o outro estava “cheio”. Primeiro o Manduca teve para Vieira um sorriso inexpressivo, sorriso de pronto para homem que tem dinheiro; a esse sorriso o Vieira correspondeu com outro, mais afetuoso; e começou entre os dous uma espécie de namoro correspondido, com olhares significativos, sorrisinhos, concordâncias, etc., etc. Por fim, os dous falaram-se, pois se davam. O Vieira começou:
– Ah! seu Manduca, deve ser uma cousa horrível quando um camarada não tem dinheiro...
– Oh! sim, deve ser... Calculo... Deve ser horrível. Eu felizmente...
– Também eu. Só sei disso por ouvir dizer.
– Graças a Deus, sempre consigo...
– Eu também. Mas deve ser horrível.
O Vieira teve assim a confirmação de que o Manduca tinha “algum”. Convidou-o para tomar “alguma cousa”. Beberam, olharam-se, sorriram-se... Cada um deles com uma doida vontade de dar o bote no outro. Na hora de pagar, o Manduca “coçou-se”; igualmente “coçou-se” o Vieira; das duas coçadelas não saiu nada. Ambos olharam o espaço azul; passou-se um longo minuto. O Vieira coçou-se de novo. Ambos estavam com muita coragem, porque cada um sabia que o outro “garantia”. Por fim o Manduca falou:
– Tens miúdos aí?
– Não.
– É porque eu não tenho trocado...
– Também eu trocado não tenho...
– Então vamos trocar.
– Vamos.
– Troca lá, porque eu não tenho para trocar.
– Também eu, para trocar não tenho...
– Mas você não está cheio de dinheiro?
– Deixa de pilhéria. Você é que está.
________
A discussão não acabou porque o Américo rebentou na gargalhada e pagou a despesa.
Gazeta de Notícias, 21 de janeiro de 1917.
Gazeta de Notícias, 21 de janeiro de 1917.
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