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segunda-feira, 14 de março de 2016

J. Brito

Parentescos


O Sr. Lopes Gonçalves goza para mim das vantagens de me encantar, pelas sublimidades que diz. Dizem-me que é um grande senador, muito alto, muito eloqüente, muito gordo, que fala como um trovão. Não o conheço pessoalmente, nunca o vi mais gordo; e a minha admiração por ele é toda feita através das páginas do “Diário do Congresso”. E é um homem! Não é só um homem grande pela estatura e pela circunferência abdominal, como também um grande homem pela elevação do que diz. Ainda ontem todos nós lemos perplexos as cousas sublimes e elevadas que S. Ex. disse na comissão de Diplomacia e Justiça do Senado. S. Ex. foi sublime!Apenas sublime! Falando do Acre, disse que o comparava a um filho, e a União à mãe. É um achado de expressão! E acrescentou: “à medida que o filho cria juízo, a mãe vai lhe concedendo favores: e só lhe deve dar perfeita liberdade quando ele chegar à maioridade, que no nosso Direito só se adquire aos 21 anos. Ora, o Acre ainda não 21 anos, como pretender dar-lhe autonomia?” – É profundo!...


É profundo, mas consideremos. Analisando bem a cousa, descobre-se aqui um certo parentesco entre o Acre e o Sr. Gonçalves. A União é a mãe: o Acre é o filho da mãe. Mas o que é a União? – É a pátria. – E que é o Sr. Gonçalves? – Senador, pai da pátria. Ora, se o Sr. Gonçalves é pai da mãe, isto é, pai da Pátria, e se a Pátria é a União, que é a mãe do filho, e se o filho da mãe que é o Acre é filho da União, que é filho do pai da Pátria, lóóóógo – como diria o meu amigo Seabra – o eminente senador Gonçalves é avô do Acre e o Acre é neto do senador Gonçalves.
Ou isso está certo ou não há lógica neste país. E só assim se explica o cuidado paternal que o Sr. Gonçalves tem pelo Acre. Diacho é que há no meio o Amazonas de onde o Sr. Gonçalves é filho: e temos a conclusão que o Amazonas é bisavô do Acre. Resta saber nessa parentela toda se o Acre é filho legítimo. O Sr. Gonçalves diz que ele é filho, que a União é a mãe. Mas quem é o pai? O nosso Direito Civil exige a declaração de paternidade para a legitimação dos filhos. Quem é, neste complicado problema familiar, o pai do Acre? Vamos, Sr. senador Lopes Gonçalves! diga! quem é o pai!... Não lhe fica bem expor a União a esse vexame. Se ela é a mãe, se o Acre é o filho da mãe, se o Sr. Senador é pai da pátria e, portanto, pai da mãe e avô do neto, não lhe fica bem trazer esse pequeno pela mão e apresentá-lo à comissão de Diplomacia e Justiça do Senado como um filho espúrio. Não, isso assim não dá certo. O Sr. Lopes tem de legitimar esse negócio – do contrário o Acre não lhe agradece a glória e a sorte de ser aqui apresentado como um simples filho da União, filho sem pai. Simples filho da mãe!...


Gazeta de Notícias, 30 de agosto de 1916.

domingo, 6 de março de 2016

J. Brito

Velha história


“Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
A historia é velha e muito conhecida. Era o caso daquele delegado de polícia, em cuja zona havia muitos “bicheiros”. Pela manhã, chamava o ordenança, o cabo Osório, e mandava “fazer o jogo”. Isto é: mandava em envelope fechado as suas saudades aos jurisdicionados que bancavam o bicho. Um elegante bilhetinho, perfumado, em papel rosa, com a singela inscrição: “Cinco mil réis no bicho que der hoje”.
O cabo Osório ia de “bicheiro” em “bicheiro” e entregava o jogo de “seu doutor”. Às 4 da tarde, chegava à porta do gabinete da delegacia, fazia uma continência e dizia sorridente:
– Às ordens de V. S., “seu doutor”. Então V. S. hoje foi feliz?...
O delegado sorria contente.
– Vá lá, Osório, receber. Tive hoje um palpite muito bom. Acertei. Vá receber.
Cabo Osório repetia sua visita diária aos “bicheiros” e levava o dinheiro que o delegado tinha ganho honradamente com o suor do seu rosto.
Isso durante três, quatro, dez, quinze dias. Cabo Osório não sabia o “gênero” em que o delegado organizava a lista, e por isso se admirava que ele acertasse todo o dia.
Sábado, pela manhã, cabo Osório foi fazer o jogo. Entregou os envelopes fechados e não se conteve. Tirou uma moeda da algibeira e entregou ao “bicheiro”:
– Aqui tem. Duzentos réis no palpite de “seu doutor”.


Pela primeira vez nesse dia cabo Osório ganhou no bicho. E ficou freguês. Os “bicheiros” da zona é que deram o desespero.


Gazeta de Notícias, 21 de agosto de 1916.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

J. Brito

SUBLIMES...


Do sublime ao ridículo há só um passo...
Li uma notícia, achei sublime, achei ridícula. O regimento vai passando. Uma senhora reunira em torno de si, em sua residência, um bando de crianças. Nisso, passa o regimento. Assim que as crianças viram os soldados começaram a cantar o Hino da Bandeira e o Nacional. Sublime! O comandante do regimento, ato contínuo, mete a força em linha e manda que as praças cantem o hino. Ainda sublime, se for verdade. Depois, em companhia dos oficiais, o comandante vai cumprimentar a senhora pela lembrança, pelo espontâneo. (A notícia não diz se a senhora ofereceu café, mas é certo). Continua o sublime.
Continua o sublime. Mas parece que o nosso entusiasmo começa a descambar. Há só um passo, não há mais que um passo do sublime ao ridículo. A força vai passando. Muito bem. “Rantamplan! plan! plan!” como na cançoneta. O grupo de crianças, de repente, em vez do “Tempo será” e do “Chicote queimado” – começa o Hino da Bandeira. O comandante manda fazer alto: – “Toca aí o hino, Vitorino!” – e ali mesmo, ao sol, suados, carabinas ao ombro, os soldados começam a cantar. É dramático. Quando os soldados acabam de cantar, o comandante, entusiasmado, diz: “Rapazes, vamos lá acima, vamos agradecer...”
É sublime esse entusiasmo agora! É sublime, mas compromete. Essas crianças que fazem deter uma força que passa; esses soldados em forma, ao meio da rua cantando o hino; o comandante, com os oficiais indo agradecer (não se sabe se tomaram café) – tudo isso é altamente sublime, altamente patriótico, altamente grandioso, mas dá vontade de rir...
É preciso não passar da medida. Do sublime ao ridículo não há senão um passo... Não demos esse passo, amigos! É preciso que nos contenhamos um pouco, que não arrotemos tanto entusiasmo recolhido de uma vez só – porque a fita pode queimar com um ridículo formidável...


Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1916.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

J. Brito

“Isto é cadeia”


“Nós precisamos de um governo-ditatura que feche esse Congresso; precisamos ainda de um estado de sítio para coonestar o fuzilamento de todos esses ladrões conhecidos e apontados pelo povo”.


Estas solenes palavras, que eu cuidadosamente gravo entre aspas, não me pertencem: pertencem a um fazendeiro em Santa Rita do Sapucaí, o Sr. coronel Antônio Moreira da Costa, que, no caso, para fixar a autoridade do que diz, tem a qualidade de ser irmão do presidente de Minas.
Voto contra o Sr. coronel! Voto contra as duas proposições do Sr. coronel. Por dois motivos: primeiro, porque fechar o Congresso seria pôr em sérias dificuldades os rapazes da imprensa que tem a obrigação de fornecer pilhérias ao público; segundo, porque ter de “fuzilar todos esses ladrões” era um trabalho maluco! Como fuzilar? Se tudo é ladrão, na opinião do Sr. coronel, quem ficaria para executar os culpados?...
A história é velha, mas cabe aqui. Em certa cidade do interior, a cadeia era pequena para conter os ratoneiros da zona. O carcereiro tinha sérias dificuldades para acomodar lá dentro toda a rapaziada que infringia o 7° mandamento da Lei de Deus, que manda “não furtar”. Um belo dia o homenzinho dirigiu-se ao governador da cidade e fez a reclamação. Era preciso uma cadeia maior.
– Mais ou menos de que tamanho? – perguntou o governador.
– Uma cadeia muito grande – disse o carcereiro.
E ambos olharam em torno, calculando, avaliando o número de ladrões prováveis que podia haver na cidade.
– Homem, você sabe de uma cousa?... O melhor é mandar levantar uma grande muralha em torno da cidade, ao redor de toda a cidade, e ficarmos nós também cá dentro.
– Também nós?!...
– Sim. Na opinião deles, nós também somos uns patifes é melhor que fiquemos todos.


Parece que não é bem isso o que deseja o Sr. coronel. S. S., naturalmente, fica do lado de fora da muralha, e quer o estado de sítio para fuzilamento do resto. Aqui é que está o difícil! Quem fuzila?... Se todos nós somos, se o país inteiro é – na opinião do Sr. coronel – um país essencialmente... agrícola, quem ficará para dar ao gatilho?... O Sr. coronel sozinho, lá em Santa Rita do Sapucaí não poderá constituir pelotão... Parece que o melhor é fazer mesmo como o tal governador da cidade do interior: mandar levantar a grande muralha em torno de todo o país (exceção feita a Santa Rita), pespegar uma grande placa azul, como essas das esquinas com o seguinte letreiro: “Isto é uma cadeia”, deixando do lado de fora somente o Sr. coronel com um grande chicote na mão. Para grandes males, grandes... muralhas.


Gazeta de Notícias, 15 de setembro de 1916.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

J. Brito

Enganos...

Esse caso do “suicida” de Niterói tem o seu lado agradável.
Agradável – é bom dizer – para o “ressuscitado”, porque para o outro não teve graça nenhuma.
Aqui, um Sr. Nunes, que tinha uma agência de casamentos, partiu para o Ignorado. Partiu, deixando cartas, dizendo que ia para lá mesmo. E foi para Niterói. Lá, na Praia Grande, havia um homem com o lindo nome de João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) a quem aprouve espairecer, ir passear, dar um giro na zona, sem dizer nada à família... Por uma fatalidade dessas que descem d’além e caem em Niterói, apareceu lá um cadáver. Um homem havia dado um tiro nos miolos e estava no Necrotério. Quem era? A família (ou os parentes) do Sr. João Antunes de Castro Guimarães foi ao Necrotério e reconheceu o cadáver. Era o cadáver do defunto. Entrou logo em despesas e fez um enterro “baita”! Ao saimento fúnebre compareceram todos os “grossos” de Niterói, até o juiz de direito.
Entrementes, o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é, etc.) estava em Maricá, a ler os jornais. E tanto leu que deparou com um anúncio de missa de sétimo dia. E tanto firmou, que viu o nome do falecido. E tanto viu o nome, que acabou vendo que a missa era dele, era por alma dele...
Ora essa!... E leu mais que o enterro havia sido muito concorrido, e que toda a gente em Niterói “churava”, como diz certa atriz do Recreio. O “defunto” disse consigo: “vão agourar o boi!” e tomou o trem à pressa a ver se chegava em Niterói a tempo de assistir à “sua” missa de sétimo dia...
Chegou a tempo... Os herdeiros ainda não haviam feito o inventário. Tudo estava intacto. Ah! que susto!... E o Sr. João Antunes de Castro Guimarães (não é o Sr. João Guimarães) saiu a correr, de jornal em jornal, de Niterói e de cá, a dizer que não tinha morrido...
Foi sorte!... Afinal, o outro, o que morreu de verdade, não deixou de ter o seu enterro pomposo. Sempre foi uma última consolação. O Sr. João Guimarães há de lamentar também – coitado! – que quando morrer de verdade talvez não tenha um enterro tão “baita” como teve agora... para os outros.


Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1916.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

J. Brito

Modernismos...

As palavras, como os vestidos, entram e saem da moda. Atualmente uma delas que grita é a palavra “palace”. Usa-se atualmente “palace” para tudo. Há anos, logo depois da crisma do antigo teatro Casino (que passou a ser Palace Theatre) a palavra estacionou um poucochito. Não estava em moda... De dois anos para cá, desembestou, celebrizou-se. Hoje tudo é “palace”. Já há três hotéis, quatro cafés, duas casas de bilhetes de loteria, uma de “tolerância” e uma de “bicho”, com o nome de “palace”. A epidemia é pior do que a que houve há tempos com o nome de “Rio Branco”. Um carteiro do Correio, que já tinha no seu livro de notas 12 ruas com o nome de Rio Branco, 13 leiterias, 17 bazares, 19 restaurantes, 12 casas de bicho, 11 vendas, enlouqueceu no dia em que lhe disseram que a travessa do Senado também passava a ser rua Rio Branco; e depois desse dia nunca mais as cartas chegaram a seu destino. Primeiro que se acerte a qual das doze ruas do Distrito Federal se destina uma carta que traga o nome de Rio Branco, o destinatário morre de velho.
Agora, a moda é com a palavra “Palace”. Nas proximidades do largo de S. Francisco há o “Palace Sorte” (casa de bicho), na rua do Hospício há o “Palace Paradis” (casa que não é de bicho), mas o cúmulo é uma senhora que anuncia nos jornais e assina-se “Palace Mariquinhas” – francamente é demais! Percebe-se que ela se chama Mariquinhas da Silva, Mariquinhas da Boa Vida ou Mariquinhas Quinhentos Réis. Mas a moda tem uma grande força sugestiva. Como talvez essa senhora tenha lido por toda a parte a palavra “Palace”, como “Palace” é a palavra que está na moda, entendeu ela que era “chic” pra burro pôr o “Palace” no nome. E nem ao menos assina “Mariquinhas Palace”; o “chic” é antepor ao nome a palavra fatal: Palace Theatre, Palace Hotel, Palace Café, Palace Mariquinhas. Francamente, não nos falta ver mais nada...


Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1916.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

J. Brito

Uma mulher que vende o marido

Este é o título de uma notícia que me cai debaixo dos olhos. Uma senhora americana, milionária de Boston, Miss Agner Bedell Cuinay, propôs à Miss Mary Chondler, também milionária, passar-lhe o trambolho, que dá pelo nome de Frederick, e não tem vintém.
Quanto a preço? Mil dólares, apenas. Barato. Na nossa moeda quatro contos de réis. Um marido sem cheta por quatro contos é um pau por um olho. Há quem dê muito mais do que isso para... ver-se livro do trambolho que tem. Diz o jornal que a oferta foi aceita, porque Miss Chondler tinha um certo “facataz” pelo Frederick. Pela vice-versa da reciprocidade (e esta!) o Frederick – não obstante casado com Miss Agner Cuinay, ou talvez por isso mesmo – andava assim, “pelo beicinho”, roxo de paixão solapante, “doente” pela Miss Chondler. Resultado: essa “roxura” toda deu em resultado a Sra. Cuinay catrapiscar dos movimentos que eles faziam nos derretimentos do “flirt” e requerer o divórcio.
Muito bem. Não resta dúvida que Miss Cuinay, mesmo americana, teve sua “dorzinha” de... cotovelo, e ainda durante a ação, só para moer, escreveu à rival a seguinte carta:
“Vejo que tendes necessidade de um marido que cuide das vossas propriedades e que se faça de pai do vosso filho. Estou disposta a ‘vender-vos’ meu marido pela soma de mil dólares, dinheiro à vista. Ele é trabalhador e está cansado de sustentar a família. Nunca conseguimos chegar a um acordo em religião e de amigos. Ele ficara contente de viver convosco e ninar vosso filho. Eu prefiro ficar com o meu gato!”
À parte aquela “dorzinha”, a carta tem muito... – como dizer? – muito... americanismo. Preferia o gato – mas, primeiro, passe para cá os mil dólares, e à vista. “Estava cansado de sustentar a família, nunca chegara a um acordo, nem em religião, nem em amizades...” Muito direito tudo. Mas no fim, no sumo, no âmago, o que se vê? Aquela “dorzinha” da preferência de outra, o velho La Fontaine, a raposa, as uvas... O marido estava verde, não prestava, antes o gato – porque gostava doutra.
Ai! como este mundo é parecido, em todos os tempos, em todos os divórcios, mesmo entre as milionárias excêntricas!...

Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1916.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

J. Brito

PAPAGAIOS

Há papagaios que falam muito: que falam mesmo demais. Não vai nisso nenhuma alusão aos Srs. deputados. Aqui se trata de papagaios e não de “papagaios”; isto é: papagaios em redondo e não entre aspas. Trata-se de papagaios que são muito mais baratos ao Tesouro; que não ganham cem mil réis por dia; que não dizem desaforos nem cousas pesadas na Câmara...
São os inocentes “louros”. Entre esses – ia eu começando a dizer lá acima – há papagaios que falam muito, e papagaios que falam demais...
Há papagaios poetas e compositores. (Repito que não se trata aqui de deputados, e sim de papagaios de verdade). Há papagaios poetas e papagaios maestros. A atriz Judith Garcez possui um, que lhe mandaram de presente de Maceió (papagaio alagoano, patrício do Sr. Raimundo Miranda), que não só é um poeta inspiradíssimo, compondo quadras rimadas, como um maestro batuta, metendo em música as poesias que compõe.
Consta até – e isto eu digo muito em segredo – que o maestro Felipe Duarte tem apanhado “motivos” nas loas desse poeta sertanejo.
Expliquemos: o papagaio da Sra. Judith sabia, quando veio lá da terra de Raimundo, aquela cousa rococó que todo o papagaio sabe:

“Papagaio real,
pelo Portugal!
Quem passa, meu louro?
É el-rei que vai à caça!
Toca trombeta e caixa!
Toca, que el-rei passa!”

Pois muito bem. Este papagaio sertanejo chegou ao Rio na época carnavalesca, quando os nossos ouvidos estavam sendo martirizados por aquela popular canção do “Pelo telefone”, “Ai a Rolinha! Siô! Siô!”.
O “louro” da terra do sururu chegou e começou a ouvir aquela “martelação” diária nos ouvidos do próximo: não havia gramofone, realejo, moleque de rua, piano familiar, revista de ano (até uma do Raul, no Trianon) que não azucrinasse os ouvidos da humanidade com o “Ai! a Rolinha, Siô! Siô!”.
E o papagaio (“sarado” como todo alagoano que se preza) começou a adaptar o que já sabia à canção da moda no Rio. E é um gosto vê-lo agora, fazendo versos da cabeça dele, compondo músicas da cabeça dele, “combinar” a canção sertaneja que os papagaios aprendem no sertão com a caceteação urbana do “Pelo telefone”.
Ainda há dias cantava ele para um grande público:

“Papagaio real,
Siô Siô!
Pelo Portugal!
Siô Siô!
Quem passa, meu louro?
Siô Siô!
El-rei que vai à caça!
Siô Siô!”

E assim por diante. É um papagaio que faz versos e música; um papagaio que sabe “adaptar”, como muito original escritor teatral do Rio de Janeiro. E – que pena! – não ganha cem mil réis por dia, como o “papagaio” Raimundo, seu honrado patrício.

Gazeta de Notícias, 2 de junho de 1917.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

J. Brito

Boatos...

Francelino Petalógico era proprietário e redator-chefe de um órgão de grande circulação chamado O Boato. Jornal muito lido, com uma tiragem de seiscentos milhões de exemplares (não obstante dizerem que o Brasil é um país essencialmente... analfabeto) O Boato dá sempre dezesseis e dezoito edições por dia, no inverno, sendo que às vezes no verão chega ao máximo de 39 edições. Agora, com a guerra, e esta trepidação diária em que vivemos, como pintos em cima de uma chapa quente – o grande órgão O Boato começou a dar cousas sensacionais de cinco em cinco minutos. Às 7 horas da manhã (dantes O Boato era matutino) vinha a nota piramidolosa de que um corsário alemão tinha metido a pique 742 unidades inglesas no Mar de Espanha. Às 8 horas havia um carapetão maior com vítimas; às 11 o kaiser havia tomado quatro cidades inglesas e um rubinat autêntico para não ter uma indigestão real. Às duas da tarde (porque O Boato também era vespertino) havia uma edição aumentada, com títulos graúdos: grande batalha naval! A esquadra alemã encurralara 389 navios ingleses ao largo da Lagoa Rodrigo de Freitas.
 Puramente sensacional. Às 4 e meia da tarde o general Hindenburg jogava o “pocker” com o rei dos belgas, em Londres; às 2 da manhã (O Boato era matutino, vespertino, noturnino e madrugadino) rebentava em Niterói uma estralada germanófila, chefiada pelo Cardeal Arcoverde... As edições esgotavam-se rapidamente, de meio em meio minuto, aos milhões, bilhões de exemplares, que os gazeteiros vendiam por eletricidade...
Ainda ontem O Boato descobriu uma que é de se lhe tirar o chapéu. Uma revolução autêntica, o estouro da boiada, com cadáveres correndo pela Avenida Central, 18 couraçados alemãs no Canal do Mangue, dois submarinos no lago dos cisnes do Campo de Santana, e mais outro dentro de um chope que um alemão fingia beber na “terrasse” da Casa Cintra, antiga Castelões. Situação negra! Cousas pretas. A Áustria fizera já desembarcar, secretamente, oito ou dez batalhões de artilharia que estavam guarnecendo os centros estratégicos das ruas das Marrecas, Núncio, Tobias Barreto, S. Jorge e adjacências.
Última HoraO Boato dava sempre 13 e 14 “últimas horas” todos os dias. Dava mais do que um relógio. Tinha aparecido morto o cadáver de um alemão (suspeitado de alemão) que, depois de interrogado na Assistência, declarou que era inglês de Marrocos e que havia perdido ontem 2$500 no galo.
O Boato deve aparecer hoje tarjado de luto pela morte do Neves.


Gazeta de Notícias, 13 de maio de 1917.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

J. Brito

Magnífico

Essa deliciosa peça que o Exmo. Sr. Marquês de Cavalcanti acaba de pregar a alguns papalvos indígenas, merece bem um prêmio. O marquês merece ser promovido a duque.
Qualquer gajo bem falante que aí chega, vindo da Europa e da Civilização, enfeita-se logo com um título de conde, de marquês (até príncipes e princesas já temos tido, mais ou menos russas) e começa logo a embrulhar elegantemente o indígena que cai como um patinho. E é muitíssimo bem feito.
Esse Marquês de Cavalcanti (eu só escrevo Marquês com M grande, que é pra dar importância ao gajo e ao capítulo) usou de um “truc” curioso e galante, para enganar os tolos. Tinha ele para seu uso particular uma ‘mademoiselle’ com escritório de cartomancia à Avenida Central. Por meios indiretos, conseguia encaminhar para a graciosa cartomante os papalvos dinheirudos a que queria enganar. Antes, tinha o Sr. Marquês o especialíssimo cuidado de informar (particularmente) à Mademoiselle do passado, presente e futuro dos ditos camaradas – de modo que quando qualquer um deles, por mero acaso, chegava a ir consultar a elegante cartomante, ela lhe dizia cousas tão íntimas da sua vida passada, da sua vida presente, que o camarada tinha de acreditar por força no que ela ainda lhe dizia de sua vida futura.
E como anteriormente o finório do Marquês já tinha entabulado com esses dinheirudos amigos os seus “vantajosíssimos negócios”, Mademoiselle aludia vagamente, com o ar mais cândido deste mundo, sem uma previsão categórica e concisa (para não fazer desconfiar) que “eles de futuro iriam ser muito felizes, em um negócio que estavam fazendo com um titular muito rico...”
Percebe-se, heim?... Diabólico, heim?... Quem é que escapa de uma destas?... Se a mulherzinha havia adivinhado todo o passado, todo o presente – como duvidar de que ela não acertava também, adivinhando o futuro?...
Todos caíam... As notas de polícia dizem que o Marquês levava indiretamente para a Avenida as suas futuras vítimas, que ignoravam as suas relações com a cartomante...
Também, tinha graça que ele fosse confessar o “truc”...
É claro, meus amigos, que esse Marquês merece ser promovido a Duque.

Gazeta de Notícias, 22 de abril de 1917.

sábado, 19 de setembro de 2015

J. Brito

Gatunos amáveis

Está publicado que os Srs. Gatunos tomaram a providência de avisar, pelo telefone, os donos das casas que pretendem visitar.
Beneméritos, os Srs. gatunos!... Compreende-se que é um tanto aborrecido ser despertada uma pessoa, alta noite, ao grito de “ladrões em casa!”. É o susto, é o alarma, é o choque que interrompe um sono tranqüilo – e isso de despertar com um susto faz moléstia de coração, segundo a medicina antiga e moderna.
Assim, com o aviso prévio da “visita” logo à noite, os Srs. gatunos prestam um real serviço aos roubados. Dar-se-á que estes preferiam não receber a visita; mas entre ser roubado com um mau despertar, com surpresa, e esperar, calmamente, uma visita amável, se anuncia – francamente a escolha não é difícil: toda a gente prefere esperar a visita, ou com doces e vinhos, um baralho de “pocker”, ou com uma boa pistola, à vontade do freguês. Por isso, se verifica que os Srs. gatunos são gentis e amáveis com essa delicada lembrança do telefone.
Pessoas que falam de cadeira nessa matéria, tanto no capítulo “visitado”, como no capítulo “visitador”, dizem que é sempre uma felicidade a vítima não estar acordada... Se o visitador encontra a sua vítima acordada, ou se ela tem a triste idéia de acordar durante o “serviço”, é uma maçada! O gatuno tem de fazer valer os seus direitos, defender a liberdade, não perder o trabalho, e puxa da faca e... quase sempre acontece o que aconteceu à velha da mala de ouro da rua Goiás.
D parte do cavalheiro que recebe a visita, é sempre melhor estar no mais pesado do seu sono: o gatuno faz o serviço e vai, sem mais estrago. É sabido mesmo o caso de um rapaz nada valente que estava na cama, acordadinho da Silva, quando um rapinante lhe entrou sorrateiramente pelo quarto, pé ante pé... A vítima tomou logo a acertadíssima providência de fingir que estava dormindo – e assistir mudo e quedo à operação do outro que lhe levava tudo. Ao fim do serviço, quando o outro já ia embora, já tinha mesmo saído a porta, ele, o roubado, deitando um olho indagador fora das cobertas, animou-se a dizer, com voz tímida:
– Boa noite, seu gatuno.
Por isso essa idéia do aviso pelo telefone é excelente. Os tímidos tomarão a providência de... não estarem em casa.


Gazeta de Notícias, 8 de março de 1917.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

J. Brito

 José Ângelo Vieira de Brito ficou mais conhecido com o pseudônimo de J. Brito.

Escreveu crônicas humorísticas com o pseudônimo de Antônio em A Notícia e na Gazeta de Notícias.
 
PARTIDA


Américo, muito amigo de pregar “partidas”, sabendo que o Vieira estava sem vintém, chegou-se-lhe misteriosamente ao pé do ouvido e disse baixo como numa revelação:
– Sabes? o Manduca está cheio de dinheiro!
Antes disso já ele havia sondado o “espírito financeiro” do Manduca, e sabia que ele estava... como o Vieira: “limpo”. Pregara-lhe a mesma partida “partida”, soprando-lhe ao ouvido:
– Sabes?... o Vieira está com uma bruta bolada!
Feito isso, preparado o terreno da intriga, o pilhérico Américo fechou-se em copas. À pequena distância, começou a observar a atitude dos dous: eram dous “prontos” entre si, cada um deles julgando que o outro estava “cheio”. Primeiro o Manduca teve para Vieira um sorriso inexpressivo, sorriso de pronto para homem que tem dinheiro; a esse sorriso o Vieira correspondeu com outro, mais afetuoso; e começou entre os dous uma espécie de namoro correspondido, com olhares significativos, sorrisinhos, concordâncias, etc., etc. Por fim, os dous falaram-se, pois se davam. O Vieira começou:
– Ah! seu Manduca, deve ser uma cousa horrível quando um camarada não tem dinheiro...
– Oh! sim, deve ser... Calculo... Deve ser horrível. Eu felizmente...
– Também eu. Só sei disso por ouvir dizer.
– Graças a Deus, sempre consigo...
– Eu também. Mas deve ser horrível.
O Vieira teve assim a confirmação de que o Manduca tinha “algum”. Convidou-o para tomar “alguma cousa”. Beberam, olharam-se, sorriram-se... Cada um deles com uma doida vontade de dar o bote no outro. Na hora de pagar, o Manduca “coçou-se”; igualmente “coçou-se” o Vieira; das duas coçadelas não saiu nada. Ambos olharam o espaço azul; passou-se um longo minuto. O Vieira coçou-se de novo. Ambos estavam com muita coragem, porque cada um sabia que o outro “garantia”. Por fim o Manduca falou:
– Tens miúdos aí?
– Não.
– É porque eu não tenho trocado...
– Também eu trocado não tenho...
– Então vamos trocar.
– Vamos.
– Troca lá, porque eu não tenho para trocar.
– Também eu, para trocar não tenho...
– Mas você não está cheio de dinheiro?
– Deixa de pilhéria. Você é que está.

________

A discussão não acabou porque o Américo rebentou na gargalhada e pagou a despesa.


Gazeta de Notícias, 21 de janeiro de 1917.