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segunda-feira, 28 de abril de 2025
João Foca
Ontem em um bonde encontrei com d. Alexandrina e os dois filhos... Os dois não, os três que foram 1$200 réis que eu paguei de passagens por eles... É quatro vezes três, mil e duzentos. Esse três aí é três... entos réis, que eles moram em Águas Férreas...
Pois encontrei d. Alexandrina, que fez a mesma festa de sempre que me vê depois de uns mergulhos que eu costumo dar e em que levo desaparecido um tempão.
– Como está, seu Joãozinho?... Então que sumiço levou, por onde tem andado?...
– Por aí, rolando sem ser pipa... Como Deus Nosso Senhor é servido...
– Pois eu ainda hoje pensei muito no senhor.
– Muito obrigado...
– Pois é a verdade... Pensei mesmo e até disse a Ernesto (Ernesto é o marido de d. Alexandrina): “Se encontrar seu João Foca, tenho uma cousa para lhe contar...”
– Uma cousa? Conte, conte, d. Alexandrina...
E já fiquei todo assanhado, porque eu cá sou assim, gosto de saber cousas que me pelo.
– Ah! não é nada de importante. Foi a sua crônica de hoje que me lembrou, sabe?... O Meireles e a mulher estão desesperados com as filhas lustrarem as unhas, não é?... Que estarei eu então com estes três pestinhos...
– Como? Também deram para dar brilho nas unhas?...Ora os manatas...
– Se fosse isso...
– Ah! logo vi!... – E vi mesmo que os insetos tinham o material unhante muito maltratadozinho, não é por falar mal. O mais velho estava até de luto fechado, cada tarja daquelas largas, que levam horas a tirar, capazes de dar aterro para um metro quadrado de Avenida à beira-mar. Nos outros dois já era luto aliviado, mas por pessoa de estimação, e isto é, luto pouco aliviado...
– Mas qual é a causa do seu desespero, d. Alexandrina?...
– O fuquibó...
– Fuquibó?...
– Fuquibó ou fuquibole...
– Foot-ball – emendou o do luto fechado.
– Pois é isso; eu para nomes estrangeiros e palavras arrevesadas sou uma lástima – disse ela e é mesmo, não é por gabar. No tempo que o cake-walk era o hino nacional, estava numa ponta danada, d. Alexandrina começou por chamá-lo quequevalk, depois passou a quericuroc e terminou por quequor...
– Ah! o foot-ball?! Mas é um belíssimo exercício, um sport magnífico...
– Se é esse port, como o senhor diz, não sei. Sei que é um inferno. Ernesto caiu na maluquice de levar os meninos pra verem jogar esse tal fuguibole... Pois, meu senhor, foi uma desgraça... Vieram para casa com o diabo no corpo, a dar pontapés em quando encontravam, dizendo uns palavrões em inglês ou o que é, que nem eu sei o que querem dizer. Até pode ser algum nome feio... Então tem uma: chula ou chupa...
– Shoot – disse um dos aliviados.
– … que quando um deles grita isso já ficou tremendo a pensar qual é o vidro que vai ficar quebrado... Ernesto comprou uma bola, para eles um bolão feito bexiga de boi, não sabe?... Não descansaram enquanto não arrebentaram a bola. Comprou-se outra... Custa cinco, seis mil réis cada uma... Arrebentaram também. Agora já disse, não se compra outra... Não é pelo dinheiro...
Eu logo vi que não era pelo dinheiro, mas pelos seis mil réis...
– Pois sabe o senhor que estes demonetes deram em fazer?... Jogam a tal porqueira com tudo quanto apanham e é redondo. Não para laranja na fruteira...
– Eles chupam como a senhora diz...
Ela não percebeu o trocadilho e eu vi que tinha perdido uma bela ocasião de ficar calado.
– E o calçado? Não há botina que aguente. Em oito dias está furado o par mais forte deste mundo... Também já disse: agora acabando estas vou mandar botar ferraduras em todos os três...
Cá por dentro achei que lhe ficavam bem aqueles sentimentos... maternais...
– E o que se machucam... Julinho esteve oito dias sem ir ao colégio por causa de um pontapé que levou na canela, que ficou um ferida...
– Foi o Nelson, que é um pinga, um porqueira e bruto como o diabo – explicou o Julinho (um dos aliviados, referindo-se ao fechado). Eu queria fazer um goal (dizia: gol) a pulso, fui fazer um passe e ele me arrumou o coice na canela...
– Ora, Julinho é de má carnadura. Qualquer coisinha apostema logo... Ficou com a perna incapaz... até tive medo que viesse alguma indisipélia –continuou d. Alexandrina, que, deixou-se lá de modéstia, também atropela suas palavras nacionais, não só as estrangeiras.
Chegavam à casa. Saltaram. No descer o Julinho deixou cair aos pés do Nelson um embrulho que trazia... Este, que estava a pensar em fazer um goal e também pelo hábito, sentindo o embrulho bater-lhe no pé, shootou logo – peft...
O embrulho, à patada, abriu. Isso foi um correr de empadinhas e maravilhas esborrachadas pela rua fora que não lhes digo nada...
Jornal do Brasil, 9 de agosto de 1905.
terça-feira, 28 de julho de 2020
João Foca
Fui encontrar os três de palestra no cais Pharoux, naquele jardinete à beira-mar, plantado. Estavam sentados, à sombra, em um daqueles bancos propícios que a Municipalidade ali mandou pôr para gáudio do público quando os soldados de polícia em ronda não tomam conta deles.
Pois estavam. Era de manhã e eu andava matando o tempo. Como houvesse ainda um lugar vago no banco, tomei conta dele e comecei a prestar atenção à conversa.
Os interlocutores eram o Zé Estrela, catraieiro valente, e o Marcolino, antigo imperial marinheiro hoje crioulo do ganho, e Unha de Aço, vagabundo célebre, cabra sacudido no pé, destorcido como nenhum para dar uma cocada ou para dar uma navalhada - “guardar uma raiva na gaveta”, como se diz em língua da flor da minha gente.
ZÉ ESTRELA – Diz você, seu charuto, que hoje é feriado...
MARCOLINO – Oralilas... Feriado até à meia noite...
ZÉ – Mas que santo é? Eu cá não me alembra nenhum que faça anos hoje...
UNHA DE AÇO – Não é dia santo de santo; é da República...
ZÉ – Só se é isso... Mas afinal qual é a festa de hoje?
MARC. – Eu cá não sei... sei que é festa...
UNHA – Diz que é por causa da tomada da Bastilha...
ZÉ – Da Bastilha? Não conheço...
MARC. – Nem eu...
UNHA – (dando-se importância) É lá um negócio da guerra do Paraguai.
MARC. – Pois dessa não sabia... É que não foi coisa de mar, não foi combate naval, que esses eu conheço todos. Deixei de ser imperial, mais ainda sou patesca... Há de ser combate de terra, coisa dos tarimbeiros...
UNHA – É de terra, sim. Não vê que a Bastilha era o lugar onde o Lopes estava escondido...
MARC. – A furna do bicho...
UNHA – Isso... Vai os brasileiros sentiram o cheiro do tal de Lopes e deram em cima que não foi vida... Foi um saragaço dos dianhos, que na dita Bastilha tinha soldado que fedia. O Lopes não era arara e andava sempre com as costas quentes... Não, que diabo é ele e pancada não faz graça pra ninguém rir!
ZÉ – E afinal?
UNHA – Afinal os brasileiros, que eram bãozãos, meteram a cara direto, tomaram a Bastilha...
MARC. – E o Lopes?
UNHA – Ora, o Lopes! Tomaram também o Lopes...
ZÉ – Bem feito!
MARC. – O que me faz espécie é que no tempo da Monarquia não era feriado essa tal de Bastilha...
UNHA – Naturavelmente como tinham sido os da Monarquia que tinham tomado ela, não queriam que dissessem que eles se festejavam a si mesmos...
ZÉ – Então são os republicanos que festejam a história dos outros...
UNHA – Não sei bem disso; não estou ao par...
ZÉ – (que é piadista) Ó raio, então és tal qual como o câmbio...
UNHA – Que câmbio, seu Zé? Eu cá não gosto de lambanças que eu não entendo...
ZÉ – Não é nada de mal, homem de Deus... É que o câmbio é uma cousa que nunca está ao par...
MARC. – Eu sei o que é...É um sujeito que está sempre ali na rua da Candelária, nos bancos...
ZÉ – Você está sonhando, ó charuto?
Marc. – Você é que está bestando, seu estranja... O câmbio anda sempre por ali...
ZÉ – Ora vá comer formigas...
MARC. – Você pensa que isso é saque? Juro por Deus! Quando eu estou por ali a ver se cavo carretos, ouço sempre aqueles sujeitos dizerem: “Vou ver o Câmbio”. E entram nos bancos... Ja vê que... Tenho ouvido isso até de ingleses e alemãos...
ZÉ – Quando digo que você está sonhando... Você lá entende o que os alemães dizem, ó seu pataqueiro!
UNHA – Entender, pode entender... Você não sabe que aquele estrangeiro que eles falam é só de malandragem...
ZÉ – De malandragem?
UNHA – Sim, criatura. Quando eles começam a trocar língua, sabe? Quando falam aquela mixórdia não estão dizendo nada, é só pra enganar os nacionais. A gente ouve aquilo e vai na onda: pensa que eles estavam conversando. Mentira só; quando eles querem entender-se falam em português.
MARC. – Qual!
UNHA – Por Deus! Eu tenho visto, posso garantir que é assim. A mim é que não me embrulham eles.
ZÉ – Ora deixe-se disso, homem...
UNHA – É o que lhe digo... Então se falassem mesmo aquela língua eles morriam de fome quando chegassem aqui, sem saber patavina da nossa?
MARC. – Há isso...
UNHA – (entusiasmado) E por que é que haviam de falar outra? Porque são da Europa? Portugal também diz que é na Europa e os portugueses falam brasileiro... Aí está você pra exemplo, seu Zé.
ZÉ – Perdão... Há uma diferença: os brasileiros é que falam português.
UNHA – Uma ova!
ZÉ – Digo-lha eu que é assim. Pois se fomos nós que descobrimos isto aqui assim...
UNHA – Você é doido, homem... Nem diga mais nada que já está dando nojo, criatura. Foram vocês que descobriram! Ora deixe-me rir.
ZÉ – Fomos, ora essa... Foi o Pedro Álvares Cabral!
UNHA – Logo quem. O Pedro Álvares Cabral.
MARC. – O mais não discuto, seu Zé, mas o Pedro Álvares não podia ser, que não tinha idade pra isso. Não tinha não. Pois se eu conheço a viúva dele, uma gorda, de preto. Ainda noutro dia ela embarcou pra Europa e fui eu que fiz o carreto das bagagens. Já vê que pra ter uma viúva assim, não podia ter sido ele, que o Rio de Janeiro é velho...
UNHA – Tá vendo?
O argumento era esmagador. O Zé da Estrela não ousou protestar...
João Foca. “Como se... conta a história”. Jornal do Brasil, 15 de julho de 1904.
Pois estavam. Era de manhã e eu andava matando o tempo. Como houvesse ainda um lugar vago no banco, tomei conta dele e comecei a prestar atenção à conversa.
Os interlocutores eram o Zé Estrela, catraieiro valente, e o Marcolino, antigo imperial marinheiro hoje crioulo do ganho, e Unha de Aço, vagabundo célebre, cabra sacudido no pé, destorcido como nenhum para dar uma cocada ou para dar uma navalhada - “guardar uma raiva na gaveta”, como se diz em língua da flor da minha gente.
ZÉ ESTRELA – Diz você, seu charuto, que hoje é feriado...
MARCOLINO – Oralilas... Feriado até à meia noite...
ZÉ – Mas que santo é? Eu cá não me alembra nenhum que faça anos hoje...
UNHA DE AÇO – Não é dia santo de santo; é da República...
ZÉ – Só se é isso... Mas afinal qual é a festa de hoje?
MARC. – Eu cá não sei... sei que é festa...
UNHA – Diz que é por causa da tomada da Bastilha...
ZÉ – Da Bastilha? Não conheço...
MARC. – Nem eu...
UNHA – (dando-se importância) É lá um negócio da guerra do Paraguai.
MARC. – Pois dessa não sabia... É que não foi coisa de mar, não foi combate naval, que esses eu conheço todos. Deixei de ser imperial, mais ainda sou patesca... Há de ser combate de terra, coisa dos tarimbeiros...
UNHA – É de terra, sim. Não vê que a Bastilha era o lugar onde o Lopes estava escondido...
MARC. – A furna do bicho...
UNHA – Isso... Vai os brasileiros sentiram o cheiro do tal de Lopes e deram em cima que não foi vida... Foi um saragaço dos dianhos, que na dita Bastilha tinha soldado que fedia. O Lopes não era arara e andava sempre com as costas quentes... Não, que diabo é ele e pancada não faz graça pra ninguém rir!
ZÉ – E afinal?
UNHA – Afinal os brasileiros, que eram bãozãos, meteram a cara direto, tomaram a Bastilha...
MARC. – E o Lopes?
UNHA – Ora, o Lopes! Tomaram também o Lopes...
ZÉ – Bem feito!
MARC. – O que me faz espécie é que no tempo da Monarquia não era feriado essa tal de Bastilha...
UNHA – Naturavelmente como tinham sido os da Monarquia que tinham tomado ela, não queriam que dissessem que eles se festejavam a si mesmos...
ZÉ – Então são os republicanos que festejam a história dos outros...
UNHA – Não sei bem disso; não estou ao par...
ZÉ – (que é piadista) Ó raio, então és tal qual como o câmbio...
UNHA – Que câmbio, seu Zé? Eu cá não gosto de lambanças que eu não entendo...
ZÉ – Não é nada de mal, homem de Deus... É que o câmbio é uma cousa que nunca está ao par...
MARC. – Eu sei o que é...É um sujeito que está sempre ali na rua da Candelária, nos bancos...
ZÉ – Você está sonhando, ó charuto?
Marc. – Você é que está bestando, seu estranja... O câmbio anda sempre por ali...
ZÉ – Ora vá comer formigas...
MARC. – Você pensa que isso é saque? Juro por Deus! Quando eu estou por ali a ver se cavo carretos, ouço sempre aqueles sujeitos dizerem: “Vou ver o Câmbio”. E entram nos bancos... Ja vê que... Tenho ouvido isso até de ingleses e alemãos...
ZÉ – Quando digo que você está sonhando... Você lá entende o que os alemães dizem, ó seu pataqueiro!
UNHA – Entender, pode entender... Você não sabe que aquele estrangeiro que eles falam é só de malandragem...
ZÉ – De malandragem?
UNHA – Sim, criatura. Quando eles começam a trocar língua, sabe? Quando falam aquela mixórdia não estão dizendo nada, é só pra enganar os nacionais. A gente ouve aquilo e vai na onda: pensa que eles estavam conversando. Mentira só; quando eles querem entender-se falam em português.
MARC. – Qual!
UNHA – Por Deus! Eu tenho visto, posso garantir que é assim. A mim é que não me embrulham eles.
ZÉ – Ora deixe-se disso, homem...
UNHA – É o que lhe digo... Então se falassem mesmo aquela língua eles morriam de fome quando chegassem aqui, sem saber patavina da nossa?
MARC. – Há isso...
UNHA – (entusiasmado) E por que é que haviam de falar outra? Porque são da Europa? Portugal também diz que é na Europa e os portugueses falam brasileiro... Aí está você pra exemplo, seu Zé.
ZÉ – Perdão... Há uma diferença: os brasileiros é que falam português.
UNHA – Uma ova!
ZÉ – Digo-lha eu que é assim. Pois se fomos nós que descobrimos isto aqui assim...
UNHA – Você é doido, homem... Nem diga mais nada que já está dando nojo, criatura. Foram vocês que descobriram! Ora deixe-me rir.
ZÉ – Fomos, ora essa... Foi o Pedro Álvares Cabral!
UNHA – Logo quem. O Pedro Álvares Cabral.
MARC. – O mais não discuto, seu Zé, mas o Pedro Álvares não podia ser, que não tinha idade pra isso. Não tinha não. Pois se eu conheço a viúva dele, uma gorda, de preto. Ainda noutro dia ela embarcou pra Europa e fui eu que fiz o carreto das bagagens. Já vê que pra ter uma viúva assim, não podia ter sido ele, que o Rio de Janeiro é velho...
UNHA – Tá vendo?
O argumento era esmagador. O Zé da Estrela não ousou protestar...
João Foca. “Como se... conta a história”. Jornal do Brasil, 15 de julho de 1904.
domingo, 10 de novembro de 2019
João Foca
Eu não sou dos que acham que o melhor da festa é esperar por ela. Não vou nisso.
Cá na minha o melhor da festa é a festa quando é boa.
Esperar, vá ele! Quem espera sempre alcança, dizem, mas é conversa fiada, que tanto pode vir o esperado, como não vir. Por isso, acho eu, o certo, o matemático é quem espera, sempre cansa, sempre, mesmo quando obtém o que desejava.
Às vezes até desespera o esperante. Exemplos disso não faltam.
Quantos não têm perdido a paciência e até a vida a esperar pela sorte, pelos três meses da maré do carvoeiro, sofrendo caiporismos de toda a espécie até daquela que faz o urubu de baixo cuspir no de cima?
Um camarada tenho eu que há três anos espera uma aragem, para realizar um negócio de monta, um negocião… Esse até se sentou, já espera de corpo espalhado em uma cadeira, com medo de não ir lá das pernas se dicar de pé. Ainda assim, continua ele de pé… atrás, sempre desconfiado de que a aragem só virá quando já não seja precisa.
Agora, dos esperantes os mais apreciáveis são os namorados. Ah! esses são engraçadíssimos.
Os que esperam, fisicamente falando, como dizia o outro, então são fantásticos.
Seu Lima, seu Liminha cavou um namoro no teatro. A Belinha, filha do comendador Pedrosa, deu-lhe corda, durante o espetáculo inteiro. Não viu o que se passou em cena, mas em compensação viu Lima em penca. Ele, idem, idem na mesma data. Nos intervalos andou lá em cima na varanda e nos corredores dos camarotes grelando a pequena, que de seu lado, estava mesmo na afinação…
Que a Belinha é sapeca, é da pá virada, e nisso de namoro – Virgem Mãe de Deus! – é de borla e capelo. Não pode ver defunto sem chorar, é o que é. Pois viu o Lima e “chorou” que era mesmo uma viúva com cinco filhos na última miséria, ou melhor “chorou” como um “pinho” de sustância na mão de um seresta daqueles de papouco, que fazem uma “prima” gemer e um bordão “saluçar” só com uma dedada. Quando acabou o espetáculo a Belinha e seu rancho saíram e o Lima, que é meio “bão” aderiu ao movimento ali naqueles apertos do [ilegível] do teatro. A pequena – é mesmo das arábias, a diaba! – quis que o “correto” ficasse sabendo a sua morada onde poderia vê-lo e então aplicou o grande sistema. Como falasse com a irmã, que ia a seu lado, disse, muito alto:
– Ah! meu Deus, quando me lembro que ainda temos de ir daqui à rua do Bispo n. tantos…
O Lima, que não é arara, logo, no punho: rua do Bispo número tantos.
(Eu digo tantos, porque com esse negócio de pôr números de invenção, em crônicas e contos já estrepei o burrinho na cerca. Ia me espetando. De uma vez o número era da casa de um homem que se escamou e queria dar-me bordoada por uma força. Não deu, porque eu não quis, que por gosto dele apanhava eu até no céu da boca.)
No dia seguinte – é dos livros – mestre Lima, todo na estica, bota-se à tarde, aí pelas 5, 5 ½ para o Bispo. Arma em guarda-noturno… da tarde e começa a ronda: pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, sempre passando pelo número tantos.
Afinal Belinha aparece e quase dá três pinotes de contente. Ao Lima, até os cabelinhos do nariz batem palmas de satisfação.
Ela demora cousa de cinco minutos, mas, passados estes, entra. Toca o Lima a esperar. Mal sabe ele que a pequena está lá dentro nos mastigos, chamando aos peitos o grande jantar. Espera, espera na esquina. Firma-se na perna esquerda, depois na direita, trauteia números de música, reamarra os borzeguins, pondo o pé em uma goteira, olha o relógio, põe o chapéu, tira o chapéu. Como já acha escandalosa a permanência, em que toda a vizinhança já reparou, dá a si mesmo explicações mentirosas, para embrulhar os mais, como se os mais ouvissem:
– Diabo de bonde que não vem!… Este Fulano está demorando!…
Eu se passasse na ocasião, com pena de apanhar uma sova, diria a minha piada, para tais casos:
– Este bonde de Laranjeiras custa a passar nesta rua do Bispo!…
Afinal o Lima desespera de esperar e roda, mas quando já vai na outra esquina, volta-se e vê que um vulto surgiu à janela. Volta, felicíssimo, radiante, dando por bem empregada a espera e vê à janela… a Libânia, a ama-seca do irmãozinho de Belinha, que veio espiar a passagem do condutor de bonde, que é seu namorado…
Imaginem o despontamento e a raiva com que ele fica a duas vizinhas que riem escarninhamente porque perceberam o logro que o pobre diabo apanhou.
Este aí, esperou, cansou-se e desesperou… Alcançar, só alcançou a troça das sirigaitas e uma dor nas cadeiras… Porque, é singular, mas é verdade, quando a gente está muito tempo em pé o que dói é… as cadeiras que, parece, só deviam doer estando a gente sentado… nelas…
Não, lá isso de esperar, temos conversado!…
Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1905.
Cá na minha o melhor da festa é a festa quando é boa.
Esperar, vá ele! Quem espera sempre alcança, dizem, mas é conversa fiada, que tanto pode vir o esperado, como não vir. Por isso, acho eu, o certo, o matemático é quem espera, sempre cansa, sempre, mesmo quando obtém o que desejava.
Às vezes até desespera o esperante. Exemplos disso não faltam.
Quantos não têm perdido a paciência e até a vida a esperar pela sorte, pelos três meses da maré do carvoeiro, sofrendo caiporismos de toda a espécie até daquela que faz o urubu de baixo cuspir no de cima?
Um camarada tenho eu que há três anos espera uma aragem, para realizar um negócio de monta, um negocião… Esse até se sentou, já espera de corpo espalhado em uma cadeira, com medo de não ir lá das pernas se dicar de pé. Ainda assim, continua ele de pé… atrás, sempre desconfiado de que a aragem só virá quando já não seja precisa.
Agora, dos esperantes os mais apreciáveis são os namorados. Ah! esses são engraçadíssimos.
Os que esperam, fisicamente falando, como dizia o outro, então são fantásticos.
Seu Lima, seu Liminha cavou um namoro no teatro. A Belinha, filha do comendador Pedrosa, deu-lhe corda, durante o espetáculo inteiro. Não viu o que se passou em cena, mas em compensação viu Lima em penca. Ele, idem, idem na mesma data. Nos intervalos andou lá em cima na varanda e nos corredores dos camarotes grelando a pequena, que de seu lado, estava mesmo na afinação…
Que a Belinha é sapeca, é da pá virada, e nisso de namoro – Virgem Mãe de Deus! – é de borla e capelo. Não pode ver defunto sem chorar, é o que é. Pois viu o Lima e “chorou” que era mesmo uma viúva com cinco filhos na última miséria, ou melhor “chorou” como um “pinho” de sustância na mão de um seresta daqueles de papouco, que fazem uma “prima” gemer e um bordão “saluçar” só com uma dedada. Quando acabou o espetáculo a Belinha e seu rancho saíram e o Lima, que é meio “bão” aderiu ao movimento ali naqueles apertos do [ilegível] do teatro. A pequena – é mesmo das arábias, a diaba! – quis que o “correto” ficasse sabendo a sua morada onde poderia vê-lo e então aplicou o grande sistema. Como falasse com a irmã, que ia a seu lado, disse, muito alto:
– Ah! meu Deus, quando me lembro que ainda temos de ir daqui à rua do Bispo n. tantos…
O Lima, que não é arara, logo, no punho: rua do Bispo número tantos.
(Eu digo tantos, porque com esse negócio de pôr números de invenção, em crônicas e contos já estrepei o burrinho na cerca. Ia me espetando. De uma vez o número era da casa de um homem que se escamou e queria dar-me bordoada por uma força. Não deu, porque eu não quis, que por gosto dele apanhava eu até no céu da boca.)
No dia seguinte – é dos livros – mestre Lima, todo na estica, bota-se à tarde, aí pelas 5, 5 ½ para o Bispo. Arma em guarda-noturno… da tarde e começa a ronda: pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, sempre passando pelo número tantos.
Afinal Belinha aparece e quase dá três pinotes de contente. Ao Lima, até os cabelinhos do nariz batem palmas de satisfação.
Ela demora cousa de cinco minutos, mas, passados estes, entra. Toca o Lima a esperar. Mal sabe ele que a pequena está lá dentro nos mastigos, chamando aos peitos o grande jantar. Espera, espera na esquina. Firma-se na perna esquerda, depois na direita, trauteia números de música, reamarra os borzeguins, pondo o pé em uma goteira, olha o relógio, põe o chapéu, tira o chapéu. Como já acha escandalosa a permanência, em que toda a vizinhança já reparou, dá a si mesmo explicações mentirosas, para embrulhar os mais, como se os mais ouvissem:
– Diabo de bonde que não vem!… Este Fulano está demorando!…
Eu se passasse na ocasião, com pena de apanhar uma sova, diria a minha piada, para tais casos:
– Este bonde de Laranjeiras custa a passar nesta rua do Bispo!…
Afinal o Lima desespera de esperar e roda, mas quando já vai na outra esquina, volta-se e vê que um vulto surgiu à janela. Volta, felicíssimo, radiante, dando por bem empregada a espera e vê à janela… a Libânia, a ama-seca do irmãozinho de Belinha, que veio espiar a passagem do condutor de bonde, que é seu namorado…
Imaginem o despontamento e a raiva com que ele fica a duas vizinhas que riem escarninhamente porque perceberam o logro que o pobre diabo apanhou.
Este aí, esperou, cansou-se e desesperou… Alcançar, só alcançou a troça das sirigaitas e uma dor nas cadeiras… Porque, é singular, mas é verdade, quando a gente está muito tempo em pé o que dói é… as cadeiras que, parece, só deviam doer estando a gente sentado… nelas…
Não, lá isso de esperar, temos conversado!…
Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1905.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
João Foca
Fui
ontem dar os pêsames ao meu prezado amigo Gomensoro, a quem um tio
fez a desfeita de morrer, deixando-lhe uma bagalhoça de encher o
olho: nada menos de 150:000$ e dois prédios.
O
Gomensoro é um rapaz de muito espírito, estourado a meu gosto e que
há de meter o pau nessa cobreira com uma graça infinita, até ficar
apitando que nem maduro.
Fui
encontrá-lo aferrolhado em casa, trancado a sete chaves, visível
apenas para os muito íntimos:
– Que
é isso, filho, o dinheiro pôs-te inatingível?… Tudo isso é medo
dos mordedores? Não sais, não desentocas desde que és homem rico…
Estarás avarento?...
– Não
é isso, embora houvesse razão para o fazer que, no Rio hoje em dia,
meu camarada, a dificuldade não é cavar a vida, mas defender o
arame que se tenha no bolso do avança que fatalmente lhe hão de
dar...
–
Tens razão...
– Não
saio, porém, por outro motivo… Tenho medo de encontros...
– De
encontros?
–
Sim, de conhecidos que me venham fazer perguntas… Calcula tu: eu
estou de luto e com um braço na tipoia, por causa de uma queda que
dei no banheiro… Vê lá: de luto e de tipoia!… Matavam-me com
perguntas sobre o motivo do luto e ensinamentos de remédios para as
prováveis moléstias do braço...
Realmente
assim é; o nosso povinho é capaz de andar léguas para bisbilhotar
sobre os motivos de estar um camarada todo de negro ou para lhe
ensinar mezinhas.
É dos
livros, é dos regulamentos: quem avista um simples conhecido de fumo
no chapéu, atravessa a rua e vai logo:
–
Está de luto?
–
Estou...
– Por
quem?
– Um
parente...
– Não
sabia… Meus sentimentos… Parente próximo?… Morreu aqui?… De
que morreu? Que idade tinha?… Deixou família?… Estava bem, não
estava?...
Se o
parente é muito próximo surgem as consolações:
– É
o caminho de todos nós...
Se é
criança:
–
Antes assim, do que andar rolando, sofrendo neste mundo...
Se é
velho:
–
Ora, já tinha gozado muito, não é?… Se havia de ficar caduco,
dando trabalhos...
Se é
moça solteira:
–
Pare ter talvez de cair nas mãos de um marido que a maltratasse,
como a filha do dr. Azevedo, antes no céu...
Mas
como isso se repete dez, vinte, cem vezes, sempre que se encontra um
conhecido, segue-se que é do enlutado dar bofetadas nos
perguntadores, ou um tiro em si mesmo.
Com as
doenças é outra scie. Toda a gente entende que há de
ensinar remédios:
–
Reumatismos?… Opodeldeck é santo remédio… Agora eu tenho uma
tia que se dá bem com fricções de um remédio para cavalos de
corridas: Embrocação… Nos vidros o nome está em inglês
embrocation…
Também
sei de uma pessoa para quem banha de anta é tiro e queda… Nunca
experimentou dar no lugar um suadouro de vapor de água fervendo?…
Pois é bom, alivia. Pega-se em uma chaleira, bota-se água e
deixa-se abrir bem a fervura, quando está na conta tira-se a tampa e
deixa-se a perna ou pedaço do corpo que é apanhar aquele vapor, não
sabe?… Depois embrulha-se bem em umas flanelas, abafa-se com o
cobertor… Não vê que o calor faz sair os humores...
E se a
gente não dispara, o almanaque de medicina fala horas e horas. As
senhoras de idade, então, são formadas em receituários. Duas
delas, começando a conversar em doenças ensinando remédios,
contando curas maravilhosas, lembrando o que se deu com a filha do
compadre Fulano que estava desenganado por três médicos e com a
irmã de uma cunhada de meu concunhado, marido de minha irmã mais
velha, que teve com os drs. Beltrano e Sicrano, passou-se para a
homeopatia, andou até com um mão santa e nada para afinal ficar boa
num pronto com uma coisa à toa, cozimento de raiz de não sei o que,
tirada no minguante e tomado em jejum – duas delas ferrando um
cavaco neste sentido, dão tempo de um cristão de passo curto ir a
pé à Copacabana e voltar, que ainda as há de achar no bate-boca.
Está
na massa do sangue, é mania do país, doença da terra… Eu mesmo,
que reparo nestas coisas, quantas vezes me tenho apanhado a ensinar
que, para solitária, não há como água de coco em jejum e pevide
de abóbora, de infusão, e para febre intermitente chá de casca de
lima umbigo, quanto mais verde melhor, por causa do sumo?...
Achei,
pois, que o Gomensoro teve grande juízo em se trancafiar em casa.
Nos
casos dele, eu, a ter de sair, havia de ser acompanhado de um
fonografozinho, com tubos preparados, contando a morte do tio e a
queda no banheiro…
Sebo,
que cansa ter de repetir essa coisa e, principalmente, que se está
sentidíssimo, aflitíssimo com a morte de um tio que deixa 150:000$
e dois prédios…
Jornal
do Brasil, 17 de janeiro de 1905.
segunda-feira, 10 de julho de 2017
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