terça-feira, 21 de outubro de 2014

João Ribeiro - “Nomen et omen”


Uma anedota curiosa e interessante foi publicada, há poucos dias, acerca da incômoda confusão de dous nomes iguais e ilustres, o de Alberto de Faria, o capitalista, e Alberto Faria, o escritor.
Relembro o caso porque também estou sujeito a igual equivocação. Há um João Ribeiro banqueiro, homem de consideração e merecida importância, e outro João Ribeiro, que sou eu, mestre escola com algumas manhas de literato.
O correio e o telégrafo freqüentemente nos confundem, dando-nos o trabalho de corrigir os enganos.
Uma vez recebi de Portugal do meu saudoso colega Júlio Moreira, o filólogo, os parabéns por ser elevado ao cargo de ministro das finanças brasileiras.
Por igual motivo, um provinciano mal informado pedia ao meu eminente amigo Clóvis Beviláqua uma carta de recomendação para o ministro.
Equívocos tais carecem de importância, mas podem ser deploráveis, uma vez ou outra. E assim sucedeu, de uma feita, quando me foi passado um telegrama de Minas mais ou menos nestes termos:
“Embarca hoje a menina: vá esperá-la à estação”.
Não recebi o telegrama, pois estava a serviço de exames em Petrópolis.
Imaginem a minha aflição quando só dous dias depois fiquei inteirado daquela informação urgente.
Felizmente tudo foi pelo melhor e nada aconteceu que entristecesse o estimado banqueiro.

* * *

Os gregos não tinham nome de família; a imaginação poética e criadora bastava-lhes para multiplicar as designações de pessoas.
Quando muito podiam dizer que Péricles era filho de Xantipo e que Alexandre o era de Filipe. Nada mais.
Os romanos multiplicaram essa unidade por três nomes e daí o costume dos povos modernos.
Em Portugal, país pequeno, sendo naturalmente poucos os nomes de família, começaram a repetir-se e a trastrocar-se.
A princesa Ratazzi, não sem espírito, escreveu que em Portugal todos eram Sousas, exceto alguns sujeitos originais que ousavam chamar-se Silvas ou Pereiras.
Daí essa eterna confusão dos Farias e Ribeiros.
Causa pasmo que os portugueses não tenham um nome vernáculo para esses casos de igualdade.
Aqui no Brasil tivemos de inventá-lo, recorrendo à língua dos aborígines. Chamamos xarás aqueles que têm o mesmo nome que o nosso.
 E ainda temos outra designação que entrou pela fronteira meridional. É a de tocaio, vocábulo espanhol.
Tocaio é o mesmo que xará e tem uma etimologia picaresca em que não acredito. Dizem que vem da misteriosa fórmula romana do casamento e que era dita pela mulher: Ubi tu Caius, ego Caia (onde fores Caio, eu serei Caia).
Plutarco em vão tentou explicar essa frase ritual do matrimônio romano.
Como quer que seja o xará e o tocaio são expressões brasileiras que acusam a deficiência do léxico lusitano.
Ainda por causa do meu nome tão vulgar e insignificante fui já vítima de um contratempo engraçado.
De caminho para a Itália, passei uma noite em Marselha, no Hotel de Genève e logo ao amanhecer fui assaltado por uma multidão jovialíssima de caixeiros (e até algumas caixeiras) que me vieram oferecer os seus serviços e bons ofícios...
Resisti à onda como pude.
Entramos em explicações. Eu não era o Monsieur De Ribeiro, nem parente dele que havia ali estado um mês antes, bebendo, gastando, comendo à tripa forra.
O outro, nada bobo, era Eduardo Ribeiro, por alcunha o Pensador, que governara o Amazonas e estava a espairecer pelo velho mundo.
Quando algum crítico benévolo e atrasado diz que sou um – pensador – lembro-me daquele (realmente esse sabia pensar) que me deu por cinco minutos a ilusão de rajá da Índia.
Deus o tenha na sua santa glória.

Jornal do Brasil, 17 de setembro de 1925.

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