sexta-feira, 23 de setembro de 2016

R. Manso

Formigas


Ontem, de manhã, encontrei o jardim invadido pelas formigas. Não sei por onde penetraram, porque a cancela estava fechada à chave. A invasão devia ter começado às primeiras horas da noite, porque já tinham construído casamatas, trincheiras e outras obras de defesa.
Minha primeira impressão foi de terror, porque eu sei (já o li numa revista inglesa), que as formigas no Brasil atacam cidades, expulsam os habitantes e destroem quanto encontram. Mas logo recuperei o sangue frio e me pus de observação.
Na escola primária aprendi a ler em um livro, subvencionado pelo Ministério da Agricultura das formigas. Hoje é que eu tenho a certeza disso, tal o número de patranhas que o livro continha sobre esses insetos. Dizia que elas são muito laboriosas e inteligentes, que armazenam víveres, que fazem guerras, que possuem vacas de leite, e até, se bem me lembro, que votam e que discutem política.
Pode ser que haja uma nação de formigas civilizadas, com todos esses progressos e mesmo uma Academia de Letras. Mas as formigas vermelhas, que invadiram meu jardim são muito atrasadas, são selvagens, estão ainda no período da pedra lascada.
Estive a reparar um esquadrão delas, que conduzia um palito. É notório que o palito é o objeto mais impróprio que há para alimentação. As formigas não sabiam disso e lá o iam levando, a trancos e barrancos, quando me resolvi a intervir, a embargar a tolice. Coloquei uma pedra em cima do palito, e fiquei observando.
Se um carregador fosse pela rua, arrastando um obelisco, e viesse um gigante e colocasse em cima o Pão de Açúcar, que faria ele, fosse numerado ou não? Verificando a impossibilidade de remover tal peso,lavaria as mãos, como Pilatos, ou iria dar parte à Polícia. As formigas não fizeram assim. continuaram a empregar toda a força; e o palito imóvel. A certo momento elas deixaram o trabalho, conferenciaram entre si, recriminando-se, com certeza, umas às outras, de estarem perturbando o serviço e depois de combinarem não sei o que, voltaram de novo à obra. Desta vez dividiram-se em dois grupos iguais, passaram cuspo nas mãos, firmaram os pés e começaram a puxar o palito em direções opostas. Aborrecido com tanta falta de senso, pus fim ao espetáculo com um piparote.
Estive observando outra formiga, à disparada, com um enorme grão de terra nas costas. Para que, não sei. Quando no caminho havia uma montanha, ou um precipício, em vez de contorná-los, o inseto seguia em linha reta. Em campo aberto, porém, dava voltas de quilômetros (quilômetros relativos), descrevia uma espiral ou um 8 e seguia, estonteada. A certa altura abandonou a carga e foi-se embora, sem ao menos olhar para trás. O procedimento dessa formiga é comparável ao do homem que tivesse que ir a pé, com um automóvel às costas, do Monroe ao Municipal, e, em vez de seguir diretamente, desse uma volta por Cascadura, galgando o morro de Santa Teresa; e quando estivesse de volta, largasse a carga à toa, na Avenida e fosse procurar outra loucura que fazer.
Mas o pior (e é esse o motivo do meu azedume contra as formigas) é que elas me estão minando a raiz de uma bela trepadeira. Logo que descobri, pedi conselhos aos vizinhos. Ensinaram-me, para afugentá-las, a pôr um pedaço de cânfora junto da planta. Quem tiver vontade de assistir a um pânico, atire um pedaço de cânfora entre formigas. Elas debandam para todos os lados, desorientadas, espavoridas. Depois de correrem como doidas, trinta ou quarenta centímetros, param, refletem e voltam; e ligam tanta importância à cânfora, como a um lápis. Outro vizinho aconselhou-me a naftalina; mas parece que foi por sarcasmo. Eu experimentei. Não há nada que as formigas apreciem tanto como a naftalina; são loucas por naftalina; é o seu perfume predileto. Empreguei outros processos, em vão. Por fim tive a ideia de pôr a descoberto a raiz da planta e regá-la com ácido fênico; mas eu mesmo, sem auxílio de ninguém, descobri, a tempo, que esse processo é idiota.
Depois de levar toda a manhã nesse trabalho, adquiri uma experiência muito útil. Conheço agora quais são os melhores meios de afugentar as formigas.
A minha trepadeira vai morrer, eu sei disso; não guardo ilusões a esse respeito. Mas um consolo me resta – O rei da Inglaterra é muito poderoso. O imperador da Alemanha é ainda mais. Pois, nem o imperador da Alemanha, nem o rei da Inglaterra são capazes de afugentar as formigas da raiz de uma trepadeira com cânfora, nem naftalina, nem mel com sublimado, nem água quente, nem infusão de fumo, nem água de sabão.


Gazeta de Notícias, 7 de dezembro de 1911.

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